terça-feira, 22 de julho de 2014

Padre Francisco - de soldado da II Guerra Mundial a monge trapista

Nota do Blog: Pe. Francisco é um homem muito afável e carinhoso, mas não deixou que eu gravasse a entrevista, pois os monges trapistas são muito reservados e possuem uma vida mais contemplativa. Pedimos que as pessoas que desejam saber mais sobre sua vida que respeitem o pedido dele, bem como seu estilo de vida monástico, e tentarei ao máximo clareza nas informações.

Pe. Francisco durante nossa entrevista informal
            Por ocasião de um retiro de silêncio que fiz no mosteiro trapista em Campo do Tenente, PR, encontrei um simpático padre que possuía uma incrível história.
Símbolo da USAAF
            Nasceu aos 10 de maio de 1923, na cidade de Filadelfia, estado norte-americano da Pensilvânia, sob o nome de Francis Joseph Dietzler. Seus pais, também nascidos nos EUA, tinham antepassados entrangeiros: o pai, de origem alemã; a mãe, de origem irlandesa.
            Era estudante de contabilidade, quando em março de 1943 foi chamado pelo serviço militar dos EUA. Trancou a faculdade e alistou-se na USAAF (United States Army Air Forces – Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos), e foi remanejado como operador de rádio.
            Seu trabalho de operador foi em um dos famosos aviões Boeing B-17, que eram apelidados de “Fortaleza Voadora.” O avião onde operou tinha base na Inglaterra, possuía 9 tripulantes e fez missões de bombardeios na Alemanha. Ele recorda-se de 30 missões.
Modelo de um Boeing B-17
            Sua última missão foi no dia 2/11/1944. O avião onde estava sofreu um ataque de aviões alemães, onde foi ferido no pulmão direito e costelas. O avião começou a incendiar-se e a tripulação precisou pular de paraquedas: um salto de 10 mil metros, em pleno fogo cruzado e ainda caindo em solo inimigo.
            Aterrissando, ferido, foi capturado como prisioneiro de guerra pelos nazistas e ficou encarcerado por 6 meses, mas desse tempo 4 meses foram passados em diversos hospitais militares. Disse que foi bem cuidado nesses locais. Os últimos dois meses de sua prisão foi num campo de prisioneiros militares próximo a Nuremberg. Padre Francisco recorda que as condições alimentares e higiênicas no campo eram escassas.
            O campo onde estava preso foi libertado por tropas do exército dos EUA no dia 29/04/1945, um dia antes do suicídio de Adolf Hitler.
Exemplo da condecoração "Purple Heart"
            Francis foi dispensado do serviço militar em outubro de 1945. Começou a namorar e terminou a faculdade de contabilidade. Foi condecorado com o Purple Heart (Coração de Púrpura), por ter sido ferido de guerra.
            Porém, o coração de Francis Joseph pendia para uma radical decisão: a vida religiosa. Seus pais, muito católicos, o apoiaram em sua decisão. Fez uma preparação de latim, terminou com a namorada e iniciou um acompanhamento com os monges da Ordem Trapista (Ordem Cistercience da Estrita Observância). Em junho de 1951 entrou finalmente na Abadia de São José (Saint Joseph’s Abbey), que fica localizada em Spencer, Massachusetts. Lá professou os primeiros votos religiosos em agosto de 1953 e os votos solenes em setembro de 1956. Foi ordenado padre em dezembro de 1957.
Saint Joseph's Abbey, onde Francis professou os votos religiosos
como monge trapista e foi ordenado padre em 1957.
            Junto com outros monges trapistas, veio para o Brasil em 1977, primeiramente para a cidade de Lapa, no Paraná, transferindo-se depois em 1982 para o município de Campo do Tenente, no mesmo estado, onde reside até hoje. É um dos padres hospedeiros do local: recebem os hóspedes que vem fazer retiro de silêncio ou mesmo passar o dia ali, e atende confissões e direção espiritual.
Vista aérea da Abadia Nossa Senhora do Novo Mundo,
em Campo do Tenente, PR, onde Pe. Francisco reside atualmente

Padre Francisco celebrando a missa matutina
na capela da Abadia Trapista
            No final da minha conversa com ele, fiz algumas perguntas de cunho mais pessoal, que ele ficasse livre para responder. Me disse que viu a Segunda Guerra como justa: “Hitler era um pouco louco.”, afirmou fazendo um sinal com os dedos e apontando para a cabeça. “O povo apoiou pois os Estados Unidos foram atacados”, com relação ao ataque dos japoneses em Pearl Harbor.
            Padre Francisco possuiu pequenos pedaços de metal penetrados na costela, sua única sequela de guerra. Quando vai fazer algum exame de radiografia, o médico ou enfermeiro sempre pergunta o que há ali nas suas costelas direitas.
            Quando estávamos saindo da sala de atendimento, perguntei a ele se ele ficou traumatizado, ou sentiu medo. Ele me disse que durante o salto de paraquedas ficou com muito medo e durante alguns bombardeios que fizeram também. E quando fechou a sala, olhou para mim e disse assim, com seu sotaque arrastado: “Não tenho traumas da guerra. A vida cristã nos ajuda a superar os traumas.”

O autor deste blog e o Padre Francisco José Dietzler, após o bate papo 
sobre a Segunda Guerra. Vê-se nele claramente o rosto resplandescente 
de um homem muito feliz, segundo o coração de Deus.


5 comentários:

  1. Que interessante! A religião pode de fato muitas vezes ser um conforto.

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  2. Muito bom a entrevista , Interessante mesmo.Parabéns!

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  3. Muito legal, Nahor, adorei!

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  4. Experiências profundas entre morte e vida!

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  5. Gostei do blog. " Dizem todas as religiões e filosofias que prestamos conta dos nossos atos, portanto, cuide mais de seu universo." Aline – http://youtu.be/BJC5dAvpf1Y?list=UUBvY_tI9xN0wVbBqJMxSr6g

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