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sábado, 19 de agosto de 2023

Um relato de experiências post-mortem sobre o Pe. Rogério Groh

(Fonte: Currículo Lattes)

              Padre Carlos Rogério Groh (1971 - 2008), foi um padre nascido em Brusque e que faleceu em Florianópolis, depois de ser acometido de um câncer na bexiga que o levou em apenas 5 meses. Ele era jovem, apenas 37 anos, e sempre alegre. Foi meu professor na faculdade de Teologia e também morei com ele no seminário Convívio Emaús durante os anos de 2006 e 2007.

             Não éramos tão próximos, mas tenho boas lembranças do mesmo do tempo convivido com ele. Inteligente, amável e caridoso. Fui visitá-lo em suas últimas semanas no Hospital de Caridade e também em seu velório, na capela do bairro Guarani em Brusque, situações que me chocaram profundamente, pois nunca tinha visto alguém tão debilitado desta doença, bem como seu corpo no caixão, extremamente frágil.
            Mas quero relatar nessas linhas, duas situações estranhas que tive a respeito do Pe. Rogério, anos depois de sua morte:

  • Em 2015, estava eu no bairro Guarani, em Brusque, jantando na casa de conhecidos, depois de participar de um evento acadêmico na Faculdade São Luiz. Já era por volta de 19h, e um pouco escuro, passei na frente da capela onde atrás era o cemitério que Pe. Rogério tinha sido sepultado. Curioso, resolvi entrar e tentar achar o seu túmulo. Porém, ao entrar, vi vários túmulos e era praticamente impossível pesquisar um por um em um cemitério relativamente grande. Porém, fixei meu olhar para minha diagonal esquerda e vi um túmulo longe, branco, que se destacava. Andei reto para este olhar, e me deparei com o túmulo do Pe. Rogério. Permaneci alguns minutos ali em silêncio.
Túmulo do Pe. Rogério Groh
(Fonte: BillionGraves)
  • Em 2022, fui visitar uns amigos no bairro Rio Branco, em Brusque, e a rodovia Pedro Merísio estava com muitas filas. Como não suporto filas de trânsito, resolvi pegar algum caminho alternativo, mas o aplicativo de gps Waze me mandava para o mesmo lugar e esperar. Simplesmente voltei e fui seguindo pelo mapa do Google Maps, apenas me orientando geograficamente. No caminho alternativo, parei o carro para visualizar melhor no celular e tomar o rumo. Eu estacionei em um ponto da rua Ernesto Bianchini onde via uma placa "Toalhas Groh". Ao olhar com atenção, essa fábrica ficava em uma pequena rua que era defronte de onde eu havia estacionado: Rua Padre Carlos Rogério Groh.

Rua Padre Carlos Rogério Groh
(Fonte: Google Maps)

                Sinceramente, não tenho explicações para essas duas situações. Pode parecer apenas uma sensibilidade maior que tive por seu sofrimento e morte terem me chocado profundamente, uma coincidência ou qualquer outra coisa. Pe. Rogério foi uma ótima pessoa que passou por esta existência, as paróquias por onde passou têm uma excelente lembrança sua. Que descanse em paz!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Chiara Corbella Petrillo e Maria Chiara Mangiacavallo: duas mulheres unidas pela cruz

            

                História de pessoas que foram até o fim levando grandes cruzes nos causam espanto, mas também brilho nos olhos. Contarei aqui a história de duas jovens italianas que foram até os últimos dias sem renunciar a seus valores e dando um testemunho de grande amor a Deus e a seus próximos.


Chiara Corbella Petrillo


            Nascida em janeiro de 1984, numa família devotamente cristã, desde cedo era levada a participar de eventos da Igreja. Com tinha 5 anos, sua mãe começou a participar da comunidade Renovação no Espírito, levando Chiara e sua irmã.
            Numa peregrinação em Medjugorje, com 18 anos, Chiara conheceu Enrico Petrillo e depois de alguns meses começaram a namorar. Com 4 anos de namoro houve um término, mas o amor dos dois ainda era forte, e reiniciaram o relacionamento agora com o acompanhamento de um diretor espiritual, um frade franciscano de Assis. Em setembro de 2008, Chiara e Enrico casaram-se.
Casamento de Chiara e Enrico

           Pouco tempo depois, Chiara engravidou. Era uma menina. Escolheram o nome de Maria Grazia Letizia. Um tempo de gravidez e, durante uma ultrassonografia, descobriu que sua filha tinha anencefalia. A despeito de todas as recomendações, inclusive de alguns médicos que disseram para abortar a criança, Chiara e Enrico decidiram manter a gravidez. Em 2009, Maria morreu 30 minutos após o nascimento, tendo ainda recebido o Batismo.
           Alguns meses depois, Chiara novamente engravidou. Agora era um menino, Davide Giovanni. Uma ultrassonografia constatou que faltavam as pernas do menino. Novos exames, também faltavam-lhe os rins e uma má formação visceral. O casal decidiu seguir com a gravidez. David morreu 37 minutos depois de nascer, e assim como sua falecida irmã Maria, recebeu antes o sacramento do Batismo.
            Novamente Chiara engravidou, e, para a surpresa de todos, o menino era saudável. Francesco seria seu nome. Mas a família teve de enfrentar a sua maior cruz.
           
Chiara em  estado terminal com seu filho
Francisco
            Chiara teve uma pequena afta na língua, a qual não deu muita importância. A ferida se desenvolveu e procuraram exames. Biópsia. Veio então o diagnóstico: câncer. Somente depois do parto de Francisco é que Chiara pode iniciar os tratamentos quimioterápicos e de radioterapia, pois seus pais queriam dar todas as condições para o menino nascer, mesmo que a vida de Chiara estivesse sob risco. O menino realmente nasceu saudável, mas a saúde de Chiara só iria despencar.
            No final de sua vida, Chiara, que já tinha perdido um olho devido ao avanço do câncer, ainda conseguiu fazer uma nova peregrinação a Medjugorje em abril de 2012 junto com Enrico e o pequeno Francesco. Morreu em 13 de junho de 2012, aos 28 anos. Seu funeral, em 16 de junho, reuniu mais de 2000 pessoas na Igreja Santa Francisca Romana. Todos os anos, em 13 de junho, há uma missa em sua memória na Itália. Seu testemunho de fé contagia muitos jovens e sua história já é comparada a de Santa Gianna Beretta Molla.



Alguns momentos do funeral de Chiara




Maria Chiara Mangiacavallo


            Nascida em Sciacca, província de Agrigento, Itália, em 7 de dezembro de 1985. Formou-se em Contabilidade no ano de 2004 e decidiu continuar seus estudos na Universidade de Palermo para ser educadora infantil.
           Durante sua adolescência cultiva diferentes paixões, como a fotografia, de viagens, a produção de peças pequenas com feltro. É bem conhecida como uma menina solar e amante da vida. Através da fé transmitida pelos pais, participa, na adolescência, de diferentes cursos organizados pelos frades de Assis, a marcha franciscana e duas viagens para a Terra Santa. Conhece padre Vito, seu pai espiritual, que a acompanha com amor no caminho rumo a Jesus. Durante uma de duas viagens para a Terra Santa, a de 2008, o Senhor fala forte no coração de Maria Chiara pedindo-lhe para "brilhar" (como indicado em vários depoimentos). Esta forte presença de Deus muito a assusta.
              Em 2010 Maria Chiara começa notando uma diferente dor no corpo para o qual nenhum médico foi capaz de chegar à causa do problema. Após várias verificações cuidadosas e consultar muitos médicos o problema é diagnosticado após exame histológico: um tumor raro no útero (leiomiossarcoma uterino), que geralmente está presente em mulheres mais velhas. Depois de perder o útero e ovários, Maria Chiara rebela-se com o Senhor levando uma vida desordenada e longe de Seu Amor.
            Apenas em 2013 tomou conhecimento da história de Chiara Corbella Petrillo via Facebook; lembra então da promessa de que o Senhor havia feito em Jerusalém e sente nela o desejo de uma morte santa e uma vida cheia de luz, a brilhar, como a de Chiara. Enquanto isso, o "monstro" continua a progredir tão rápido e implacável, e assim antes de comprometer sua bexiga, Maria Chiara retomou seus contatos com Padre Vito e a sua vida muda radicalmente. Se aproxima do Evangelho da Anunciação, na qual ele se vê e encontra toda a sua vida. Enquanto isso, sua saúde continua a deteriorar-se, mas, ela sabe disso e sempre vê esses fatos à luz de Deus, de modo a definir uma clara vocação, a do sofrimento.
           
   Durante este tempo Maria Chiara paradoxalmente encontra força em Deus Pai que nada falta aos seus filhos e passa seus derradeiros momentos para testemunhar o amor de Deus em sua vida em várias ocasiões. Deus dá a graça para realizar a "Way of Providence" com seu amigo fraterno Enrica, andando cerca de 115 km de Verna para Assis, sem dinheiro, comida e com um tumor no corpo debilitante, portanto, nenhuma certeza da sua forças físicas.
Funeral de Maria Chiara. Nota-se o véu de noiva em seu
caixão, alusão de seu enlace eterno com Cristo
           
             Maria Chiara subiu para o Pai em 13 de março de 2015, exatamente nove meses depois de ter sido chamado de "fruto de Chiara Corbella", durante uma celebração eucarística, depois que comungou do corpo de Cristo e receberam a bênção diretamente do mãos do padre Vito, como ela desejava, morrendo em comunhão com Ele em um abraço eterno. Seu funeral, no dia 16 de março, teve a presença de jovens de toda a Itália, sendo um evento anormal para a cidade de Sciacca, onde foi celebrado o Casamento Eterno de Maria Chiara com seu Amado. As pessoas do local nunca tinham visto tanta alegria e fé em um cortejo fúnebre!

Trechos do funeral de Maria Chiara



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Oração da Igreja pelas autoridades políticas

Presidenta Dilma com os ex-presidentes atualmente vivos

     É dever de todo cristão católico rezar pelas autoridades políticas constituídas, concordando ou discordando de suas ações. Por isso que um católico que instiga o ódio ou debocha de uma autoridade política acaba dando um contratestemunho à sua fé. Rezar pelos que nos governam é uma forma até de misericórdia para com os mesmos, mostra que podemos optar por uma fé sólida, sem deixar de questionar os erros e elogiar os acertos.

      No catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1900, há uma oração pelas autoridades políticas do Papa São Clemente I (que governou a Igreja de 88 a 97).


       "Concedei-lhes, Senhor, a saúde, a paz, a concórdia, a estabilidade, para que exerçam sem entraves a soberania que lhes concedestes. Sois vós, Mestre, rei celeste dos séculos, quem dá aos filhos dos homens glória, honra e poder sobre as coisas da terra. Dirigi, Senhor, seu conselho segundo o que é bom, segundo o que é agradável a vossos olhos, a fim de que, exercendo com piedade, na paz e mansidão, o poder que lhes destes, vos encontrem propício."

       Não se esqueça que, durante a Oração para a Benção do Santíssimo, sempre rezamos "(...) pelo chefe da Nação e do Estado, e pelas pessoas constituídas em dignidade para que governem com justiça."

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sexo, religião e costumes - artigo de Pe. Zezinho, SCJ

          
             A realidade dos heterossexuais, dos gays, dos homossexuais e das lésbicas é mais do que uma questão. São muitas questões.
            Na humanidade, desde que apareceu esta forma de desejo e de afeto, todos, sem exceção de ninguém, tiveram que se posicionar. Este afeto existia. E não era possível reduzir o fato à prostituição , desvio da natureza, ou sem vergonhice.
            A maioria não escolheu, desde a adolescência ou juventude enveredar em direção do mesmo leito. Gostaram de uma pessoa do mesmo sexo e encontraram correspondência. Até porque quem não sente desejos por alguém do mesmo sexo dificilmente compreende o universo desses irmãos e irmãs. É outro outro tipo de afeto.
            O drama dos pregadores de religião é saber onde colocar o amor de Deus e do amor por Deus num coração que absolutamente não sente, nem desejo, nem vontade de amar conjugalmente alguém do outro sexo. Podem até dividir o mesmo espaço, a mesma mesa, mas não o mesmo leito.
            O que o Papa Francisco e outros estudiosos de comportamento humano estão dizendo -e há centenas de estudos sobre sexo, desejo e afeto- é que não se pode jogar todo mundo no mesmo caldeirão ou balaio. A noção de pecado passa pelo querer, mas passa também pelo diálogo e pela caridade.
            Uma coisa é o que as novelas e revistas sensacionalistas mostram, e outra é o que psicólogos e sacerdotes sabem sobre a dor de amar sem poder amar ou amar sem querer amar.
            Ninguém chega a nenhuma conclusão socando comportamento nas pessoas. Houve quem optou por não se entregar a tais afetos. E há muitos que decidem não lutar contra o que sentem .
            Os pregadores e conselheiros precisam de bom conhecimento de Teologia Moral, de Psicologia e às vezes de Psiquiatria porque muitos se desequilibram, tanto quanto héteros também se desequilibram ao perder o homem ou a mulher desejada.
            Não custa pedir ajuda a quem sabe mais. Não são leprosos morais e Deus os ama, embora não concordemos com sua maneira de amar. Mas quem disse que entendemos todas as dores de uma alma? A nós que temos outra visão de sexualidade cabe dialogar se quiserem diálogo. Se não quiserem mesmo assim não temos o direito de ferí-los.
            Que eles saibam que não pensamos do mesmo jeito, mas também que não seremos atiradores de pedras. São nossos irmãos e irmãs que sabem que temos outro jeito de ver o afeto, o amor e a vida.


Pe. José Fernandes de Oliveira, o Pe. Zezinho, é sacerdote da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (dehonianos). Cantor e compositor. Reside em Taubaté-SP.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Teologia da libertação – definição, prós e contras e posição oficial da Igreja

          Recentemente, após algumas acusações de comunismo à minha pessoa, resolvi escrever sobre o que é a Teologia da Libertação, argumentos contra e a favor e a verdadeira posição oficial da Igreja sobre o assunto. Todo o artigo está recheado de links que podem ajudar você, leitor ou leitora, a perceber de forma clara o assunto, fugindo de "achismos" ou argumentos meramente violentos,  como temos infelizmente encontrados em sites e redes sociais.
         Boa leitura!



I.     Definição e origens
         A Teologia da Libertação é uma corrente teológica do pensamento católico (que posteriormente transcendeu a outras denominações religiosas), surgida a partir na década de 60 na América Latina, que exige uma opção preferencial pelos pobres, a partir da leitura do Evangelhos, bem como  da prática de Jesus Cristo.
            A Teologia no século XX passou por um ressurgimento a partir do movimento neotomista, onde há uma abertura aos problemas modernos. Destaca-se também a influência do filósofo Maurice Blondel na questão da imanência. Despontam nomes como Pe. Karl Rahner SJ1, Frei Marie-Dominique Chenu OP2, Frei Yves Congar OP, cardel Pe. Henri De Lubac SJ, Pe. Hans Urs von Balthasar, Pe. Joseph Ratzinger (atual papa-emérito Bento XVI), Frei Edward Schillebeeckx OP, entre outros. A situação econômica pós II Guerra Mundial, o avanço frenético do capitalismo e o Concílio Vaticano II também fizeram um pensar teológico diferente. A influência de pensadores protestantes, como Jürgen Moltmann, Richard Shaull, Johann Baptist Metz e Harvey Cox também estava presente no ressurgimento da teologia católica do século XX.
Frei Gustavo Gutierrez, OP, criador do
termo "teologia da libertação"
            A libertação no sentido político-econômico, surge com dois sociólogos latino-americanos, o brasileiro Fernando Henrique Cardoso e o chileno Enzo Faleto, que elaboraram a teoria da dependência e da libertação, em oposição à então vigente teoria do desenvolvimento3, no livro Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica, de 1970. Na pedagogia, com o educador brasileiro Paulo Freire e na filosofia, com o argentino Enrique Dussel. Lembremos também que era o início das ditaduras militares na América Latina, que colocaram as Igrejas Cristãs contra a parede em suas posições.

            O termo teologia da libertação foi cunhado pelo Padre Gustavo Gutierrez (atualmente frade dominicano), em seu livro “Teologia da Libertação: Perspectivas”, em 1971 (baixe o livro AQUI), mas as raízes do movimento, como vimos. são anteriores. Segundo Gutierrez, a definição de libertação é a seguinte:

Libertação exprime, em primeiro lugar, as aspirações das classes sociais e dos povos oprimidos, e sublinha o aspecto conflituoso do processo econômico, social e político que os opõe às classes opressoras e aos povos opulentos.4

            Os grandes expoentes da Teologia da Libertação são, além do pe. Gutierrez, os teólogos Leonardo Boff (ex-frade franciscano), Pe. Jon Sobrino SJ, Pe. José Comblin e Pe. Juan Luis Segundo SJ, dentre outros.
            Apresentarei agora os atuais principais críticos da Teologia da Libertação e, sem seguida, os argumentos dos que a defendem, para após isso, apresentar o que realmente a Igreja fala dessa corrente teológica.

I. Críticas
            Segundo seus críticos mais ferrenhos, a Teologia da Libertação deturpa o pensamento católico ao colocar conceitos marxistas em suas teorias, como a luta de classes, o ódio às instituições (que pode desembocar na Igreja), e uma negação da transcendência, pois tudo seria visto sob o aspecto político e material.
Felipe Aquino (esquerda) e Pe. Paulo Ricardo, dois
grandes críticos da TL atualmente no Brasil

            O Padre Paulo Ricardo, da Arquidiocese de Cuiabá-MT, que possui vários cursos em seu site oficial, dedica uma parte de seu curso “Revolução e Marxismo Cultural” só sobre a Teologia da Libertação, que você pode conferir AQUI. Segundo o sacerdote, a teologia da libertação faz uma negação do processo transcendental, sendo o Reino de Deus apenas imanente. Faz uma reflexão dizendo que a Teologia da Libertação prega a revolução e acusa o marxismo de infiltrar-se na Igreja através da Teologia da Libertação. Infelizmente toda essa reflexão do Pe. Paulo Ricardo acerca da Teologia da Libertação carece de referências bibliográficas, ficando apenas no plano da citação de autores e interpretação livre do referido canonista.
            O prof. Felipe Aquino, membro da comunidade Canção Nova, também é um dos mais ávidos críticos da Teologia da Libertação. Já se envolveu numa grave polêmica com Dom Pedro Casaldáliga, bispo-emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia-MT (conteúdo você pode conferir AQUI a carta e AQUI o esclarecimento da mesma). Felipe Aquino escreveu alguns artigos contra a Teologia da Libertação, baseando-se em um artigo de 1984 do então Cardeal Dom Joseph Ratzinger, intitulado Eu vos apresento a Teologia da Libertação. Ao contrário do Pe. Paulo Ricardo, Felipe Aquino cita suas referências e contribui para o debate mais teológico da questão, alertando para um possível perigo dessa corrente teológica.

II. Argumentos prós
            Em um livro de 1985, chamado Como fazer Teologia da Libertação, o então frei Leonardo Boff, OFM seu irmão, Frei Clodovis Boff, OSM, argumentam que que só utilizam algumas indicações metodológicas do sistema marxista, rechaçando materialismo histórico-dialético, pois a práxis libertadora é centrada no Cristo5.

Da esquerda pra direita: Leonardo Boff, Pe. Jon Sobrino SJ e Pe Juan Luis Segundo,
três dos maiores expoentes da TL na América Latina
            Os defensores da Teologia da Libertação argumentam que seu embasamento é bíblico, e que ela abriu o leque para vários problemas que até então não tinham uma devida atenção num campo teológico majoritário: exploração trabalhista, negros e o preconceito racial, mulheres, ecologia, etc.
            As chamadas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base) serviram, segundo os defensores da Teologia da Libertação, para ampliar a fé nas comunidades mais simples, onde o pobre pode ser o agente de sua libertação. Segundo o Pe.João Batista Libânio SJ (falecido em 2014) e o Irmão Afonso Murad FMS6, a Teologia da Libertação relaciona-se criticamente com as práticas sociais, pois colhe e formula uma reflexão teológica a partir das perguntas de leigos católicos engajados em movimentos sociais, pastorais comprometidas, CEB’s, grupos de defesa de direitos humanos, e também nos campos da liturgia e eclesiologia7.
            A crítica da Teologia da Libertação ao capitalismo faz com que muitos a acusem de ser mancomunada com o comunismo. Mas a Igreja se opõe a essas duras correntes políticas. Só sobre contra o capitalismo, por exemplo, escreveram os papas Leão XIII (Rerum Novarum), Pio X (Editae Saepe, Notre Charge Apostolique, Carta ao Cardeal Ferrari), Pio XI (Divinis Redemptoris, Quadragesimo Anno), João XXIII (Mater et Magistra), Paulo VI (Populorum Progresio), João Paulo II (Laborens Exercens, Sollicitudo Rei Socialis, Centesimus Annus) e Francisco (Evangelii Gaudium). Criticar o capitalismo deve ter o mesmo peso da crítica ao comunismo.

III. Posição oficial da Igreja

            Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a Igreja nunca condenou a teologia da libertação muito menos a classificou como herética. A frase escrita por Dom Joseph Ratzinger no artigo já citado de 1984 é emblemática e desafia a uma reflexão: “(...) a radicalidade da teologia da libertação faz com que a sua gravidade não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente.”
            Oficialmente a Igreja lançou dois documentos: um em 1984, chamado Libertatis nuntius (publicado no Brasil como Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação”, você pode baixa-lo AQUI) que trata especificadamente dessa corrente teológica, e outro em 1985, chamado Libertatis Conscientia (publicado no Brasil como Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação, (você pode baixa-lo AQUI) que trata de pressupostos teológicos dos temas da liberdade e da libertação.
            No documento de 1984, a Igreja afirma que a análise marxista é insuficiente e condena a reflexão sobre a luta de classes, enfatizando que isso leva à violência. Porém, reitera que:

Uma teologia da libertação corretamente entendida constitui, pois, um convite aos teólogos a aprofundarem certos temas bíblicos essenciais, com o espírito atento às graves e urgentes questões que a atual aspiração pela libertação e os movimentos de libertação, eco mais ou menos fiel dessa aspiração, põem à Igreja. Não é possível esquecer, por um só instante, as situações de dramática miséria de onde brota a interpelação assim lançada aos teólogos8.
           
            O documento ainda reforça que a teologia da libertação deve sempre estar atenta à Doutrina Social da Igreja e assentada nos três pilares citados na III Conferência do Episcopado Latino-Americano de Puebla: a verdade sobre Cristo, a verdade sobre a Igreja e a verdade sobre o homem.
Em 1984, o então cardeal Dom Joseph Ratzinger, em
documento oficial, escreveu que pode haver uma
"(...) teologia da libertação corretamente entendida".
            Em 1986, com a instrução Libertatis Conscientia, alguns pressupostos teológicos são mais abordados e estendidos, mas reforma a tese de que a Teologia da Libertação é uma teologia da Igreja, porém tendo-se de afastar das ideologizações e preocupações apenas terrenas:

(...) uma teologia da liberdade e da libertação, como eco fiel do Magnificat de Maria conservado na memória da Igreja, constitui uma exigência do nosso tempo. Mas seria uma grave perversão captar as energias da religiosidade popular com o fim de desviá-las a um projeto de libertação meramente terrena, que se revelaria, muito cedo, uma ilusão e causa de novas servidões. Os que cedem dessa forma às ideologias do mundo e à pretensa necessidade da violência não são mais fiéis à esperança, à sua audácia e coragem, tais como as enaltece o hino ao Deus de misericórdia, que a Virgem nos ensina.9

Cardeal Dom Gerhard Müller
            Mais recentemente, o cardeal Dom Gerhard Ludwig Müller, atual prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, apaziguou oficialmente os ânimos da Igreja com a Teologia da Libertação. Em 2014, no lançamento de seu livro Pobre para com os pobres (prefaciado pelo Papa Francisco) falou que a Teologia da Libertação foi esclarecida (confira AQUI) e também em outro momento afirmou que “(...) é necessário distinguir uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta.” (confira AQUI).
        Pode-se claramente perceber, caso necessitem consultar os documentos oficiais e as declarações de Dom Müller, que a Teologia da Libertação, corretamente interpretada, faz parte do pensamento católico.

IV. Alguns mitos a seres esclarecidos
·      Não há nenhuma referência em livros científicos da Teologia da Libertação repudiando as normas litúrgicas e o uso do hábito eclesiástico. Se algum teólogo da libertação o faz, é por sua conta verbal.
·         A Teologia da Libertação nunca foi condenada. Ela foi corrigida e alertada.
·     Leonardo Boff não foi excomungado pela Igreja. Ele foi colocado em “silêncio obsequioso” por duas vezes e deixou o ministério sacerdotal e a vida religiosa em 1992.
·         O grande problema acerca da Teologia da Libertação, dentro do campo científico, é a possível relação dela com o marxismo. Fora disso, são discussões muito ligadas a questões políticas, como acontece em diversos sites da internet e redes sociais. Ou seja, preocupações terrenas.
·         Todos os livros escritos por um padre ou religioso recebem o imprimatur da autoridade eclesiástica competente, assim de algum modo falam em nome da Igreja. Portanto, todos os livros de Teologia de Leonardo Boff escritos antes de 1992, somente para citar um exemplo, podem ser estudados no campo acadêmico teológico sem problemas.
·         Sobre a posição da Igreja acerca do socialismo e do comunismo, a Igreja critica o socialismo, dizendo de sua incompatibilidade com a doutrina cristã (através do papas Pio IX, Leão XIII, Pio X, Pio XI e João Paulo II). Faz o mesmo com o liberalismo/capitalismo (com os papas Pio IX, Pio X, Pio XI, Paulo VI, João Paulo II e Francisco). Porém, o comunismo é passível de excomunhão por um decreto de 1949 de Pio XII. A Igreja sabe que o socialismo e o comunismo não são a mesma coisa e infelizmente há pessoas que caem no erro de coloca-los na mesma “panela”. Estou escrevendo uma longa reflexão sobre esse assunto, breve estará disponível.

            E você caro leitor? Como se posiciona de forma teologicamente frente a essa polêmica questão? Longe de ser terminada nos meios mais simplistas, acredito que a Igreja já deu sua posição frente a essa parte, através de seus documentos magisteriais.

________________
1 SJ, sigla para Societas Jesus, jesuítas.
2 OP, sigla para Ordum Precatorium, dominicanos.
3 Cf. LIBÂNIO e MURAD, 2001, p. 163.
4 GUTIERREZ, 1975, p. 68.
5 Cf. BOFF, L, 2001, pp. 50-51.
6 FMS, sigla para Frater Maristae a Schollis, maristas.
7 Cf. LIBÂNIO e MURAD, 2001, p. 183.
8 SAGRADA CONGREGAÇÃO DA DOUTRINA DA FÉ, 1984, p. 15.
9 SAGRADA CONGREGAÇÃO DA DOUTRINA DA FÉ, 2007, p. 71.

Referências Bibliográficas

AQUINO, Felipe. O que é a Teologia da Libertação? Disponível em: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2012/02/15/o-que-e-a-teologia-da-libertacao/

AZEVEDO JUNIOR, Paulo Ricardo de. Teologia da Libertação e sua influência na Igreja. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/aulas/teologia-da-libertacao-e-sua-influencia-na-igreja

BOFF, Leonardo e BOFF, Clodovis. Como fazer Teologia da Libertação? 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

GUTIERREZ, Gustavo. Teologia de la liberación: perspectivas. 7. ed. Salamanca: Sígueme, 1975.

JOÃO PAULO II. Carta do Papa à CNBB sobre a missão da Igreja e a Teologia da Libertação. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1986/documents/hf_jp-ii_let_19860409_conf-episcopale-brasile.html

LIBÂNIO, João Batista e MURAD, Afonso. Introdução à Teologia: perfil, enfoques, tarefas. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2001.

RATZINGER, Joseph. Eu vos explico o que é a Teologia da Libertação. In: BETTENCORT, Estevão (org.). Revista Pergunte e Responderemos – nº 276, ano XXV. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1984.

SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução geral sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação”. São Paulo: Paulinas, 1984 (Col. “A voz do Papa”).

________. Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2007 (Col. “A Voz do Papa”).

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Intervenções de Santa Teresinha do Menino Jesus na Primeira Guerra Mundial



            Irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face (1873 – 1897) é uma das mais populares santas católicas do mundo contemporâneo. Viveu apenas 24 anos e praticamente a maior parte da sua vida na cidade de Lisieux, onde por 9 anos esteve no Carmelo dessa cidade. A espiritualidade de Teresa e a profundidade de seus escritos influencia até hoje o pensamento católico.
            A devoção à Santa Teresinha se expandiu da França para o resto do mundo por um fato curioso, quase desconhecido: soldados franceses que lutavam nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) sentiram durante o conflito a intercessão da santa, e em agradecimento, enviaram cartas ao Carmelo de Lisieux. Com tantas cartas, o Carmelo um dia decidiu compilá-las num documento chamado Pluie de roses (“Chuva de rosas”, uma expressão de Teresa antes da morte), onde já estavam anexadas também outras correspondências de graças alcançadas dos anos 1906 a 1912. Pluie de roses foi publicado até 1926, totalizando 10 volumes, com 3200 testemunhos.

            Esse assunto despertou-me curiosidade após ter sido citado pelo meu mestre no Postulantado, Pe. José Napoleão, SCJ, durante uma formação. Fui então, em busca das cartas e traduzi alguns desses relatos, que você pode encontrá-los na íntegra do Pluie de roses, através do link https://www.bibliotheque-monastique.ch/bibliotheque/bibliotheque/saints/carmel/thereseenfj/pluieroses/index.htm (os relatos estão todos em francês)

***


Campo de prisioneiros de guerra, Meiringen (Suíça), 8 de março de 1916.

            Feito prisioneiro em Maubeuge, em 8 de setembro de 1914, eu fui internado em Friedrichsfeld. Uma noite do mês de junho de 1915, deixando a capela, depois de uma fervorosa oração à Irmã Teresa, para não ser enviado a trabalhar nas usinas da Alemanha, fui tomado por um forte odor de rosas. Ora, eu estava rodeado de uma cabana em madeira, sem nenhum jardim nas imediações; o suave perfume se prolongaria quase meia hora. A santinha aceitou assim, com certeza, que ela tinha escutado minha súplica. De fato, no dia seguinte, convocado para a visita, o doutor não olhou para mim, e enquanto muito dos meus camaradas foram designados para partir, eu fui classificado como um doente velho, e enviado para a Suíça. No entanto, minha saúde é muito boa.
            Eu agradeço muito à pequena Irmã Teresa desse duplo previlégio.

Edouard Dekonne,
soldado internado, 
Hôtel Anderegg.  Meiringen (Suíça)


Do front, 28 de julho de 1917.

            Soldado belga, muito confiante em Irmã Teresa do Menino Jesus, eu gostaria de assinalar a proteção notável da qual fui o objeto recentemente, em frente à Dixmude.
            Eu estava nas trincheiras, por volta das 8:30 da noite, quando um bombardeiro de uma violência enorme se desencadeou sobre nós. Uns projeteis de grande calibre caíram aos milhares nos arredores do abrigo frágil, onde eu vinha me refugiado, explodindo de todas as partes, umas por cima das outras, ou nos lados, ou no parapeito da nossa linha, enquanto que um torpedo se afundava na terra, cavando enormes buracos. Se somente um destes projeteis tivessem passado no meu abrigo, eu e meus camaradas estaríamos perdidos. Mas eu rezei à Irmã Teresa e ela desviou todos, enquanto que todas as trincheiras próximas foram arrasadas, sem exceção de uma só!
            Nós estávamos, sob o fogo incessante, depois de quatro longas horas, num estado de angústia e de nervosismo que pressentia, quando implorei para a santinha não somente de nos proteger, mas de fazer cessar o bombardeio terrível. E bem, eu afirmo que no mesmo instante onde eu fazia esta oração, a voz do canhão se desacelerou, e três minutos mais tarde, mais um só tiro não foi dado.
            Jamais vou esquecer deste milagre da Irmã Teresa!
             
A. Docobu,
6e Brig M. V. D. 
D. 110. Exército belga.



Nos Exércitos, 8 de setembro de 1917.

Senhora Superiora,
           
            Eu li na imprensa, nos últimos tempos, diversas comunicações a respeito da Irmã Teresa do Menino Jesus, e, no momento onde todos os lados afirmam seu poder, eu não posso deixar de reportar um grande testemunho de sua glória.
            Nas primeiras semanas desta grande guerra, eu recebi de minha noiva uma relíquia de Irmã Teresa e sua imagem, e a carta que as acompanhava me dizia: “Guarde-as valiosamente e nunca separe-se jamais, eu tenho certeza que a pequena Irmã te preservará.”
            Depois, eu sempre as conservei comigo, e veio um dia onde eu senti um modo evidente a proteção que eu tinha.
            Foi no último maio; meu departamento de ligação me chamou a um posto remoto de poucos quilômetros de onde eu me encontrava. No caminho, fui subitamente surpreendido por uma terrível ação conjunta de soldados, algo terrível; primeiro, eu me joguei em um buraco; em seguida, entre balas, eu queria achar um abrigo próximo, mas, quando eu estava entrando, vi um soldado escondendo-se sob uma árvore caída, gesto que convidava-me a acompanhá-lo. Levou-me embora, porque alguns minutos mais tarde, o abrigo onde eu pretendia refugiar-se desmoronou sob o fogo e matou todos os ocupantes... eu ainda tremo só de pensar no que teria acontecido comigo, e aqui no meio da metralha neste dilúvio de fogo, sem sequer tendo pensado de invocar a santa carmelita, sua imagem tomou forma diante dos meus olhos, e uma voz interior me disse: “E a pequena irmã Teresa te salvou.” Então eu não pensei sobre isso, como explicar esta misteriosa voz convidando-me para agradecer? Pareceu-me uma intervenção real da querida santa, e eu ofereço-lhe o tributo de minha imensa gratidão.
            Atenciosamente,

            H. Rocher, brigadeiro,
            51e rég. d'art., 71e Brie.


***

            Muitas dessas graças também foram comunicadas ao papa Bento XV, como você pode ver clicando AQUI que te encaminhará ao link que contém os relatos (em francês). Durante e após o conflito, também muitos soldados foram ao túmulo de Teresa no Carmelo agradecer a ajuda espiritual.
Grupo de soldados visitando o antigo túmulo de Teresa no
Carmelo de Lisieux, por volta de 1915.

            Santa Teresinha, a doutora do Amor, que não deixou de trazer esse dom em meio à guerra e sofrimento! Rogai a Deus por nós!


Referências Bibliográficas

Cartas das trincheiras. In: http://www.arautos.org/artigo/63980/Cartas-das-trincheiras.html, acessado em: 01/05/2015, às 22h30.

Les pluies de roses. http://www.archives-carmel-lisieux.fr/carmel/index.php/miracles/les-publications-pluies, acessado em: 11/05/2015, às 13h15.



Suppliques des soldats de la 1ère Guerre au Pape Benoît XV. http://www.archives-carmel-lisieux.fr/carmel/index.php/apres-1897/la-1ere-guerre/suppliques-des-soldats-de-la-grande-guerre-au-pape, acessado em 10/05/2015, às 20:00.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

A Igreja e a redução da maioridade penal [ATUALIZADO]

              Diante da polêmica acerca da Proposta de Emenda Constitucional 171/1993, de autoria do ex-deputado Benedito Domingos (PP-DF), que se encontra tramitando na Câmara dos Deputados, o recado vai para os católicos, já que é a maior religião professada no Brasil.

            Qual a posição oficial da Igreja sobre a redução da idade penal? Simples, a Igreja Católica é CONTRA a redução da idade penal. A estrutura do catolicismo, que prega a fidelidade e obediência ao Papa, ao Magistério e os bispos, deveria se tornar uma regra para seus fiéis. Momento para aquele que se diz católico e ainda é a favor da redução da maoridade penal, repensar seus conceitos, ou caso não se acerte com o pensamento da Igreja, repensar sua concepção de fé.
            Apresento um trecho e um documento oficial da CNBB sobre o tema e o discurso do Papa Francisco à delegação da Associação Internacional de Direito Penal, proferido no Vaticano. O discurso do papa também aborda as condições dos presos, pena de morte e outros temas polêmicos.

1.       Mensagem da CNBB sobre a redução da maioridade penal, de 18 de junho de 2015 (link oficial com o texto completo aqui)


 “Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

            Temos acompanhado, nos últimos dias, os intensos debates sobre a redução da maioridade penal, provocados pela votação desta matéria no Congresso Nacional. Trata-se de um tema de extrema importância porque diz respeito, de um lado, à segurança da população e, de outro, à promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente. É natural que a complexidade do tema deixe dividida a população que aspira por segurança. Afinal, ninguém pode compactuar com a violência, venha de onde vier.
            É preciso, no entanto, desfazer alguns equívocos que têm embasado a argumentação dos que defendem a redução da maioridade penal como, por exemplo, a afirmação de que há impunidade quando o adolescente comete um delito e que, com a redução da idade penal, se diminuirá a violência. No Brasil, a responsabilização penal do adolescente começa aos 12 anos. Dados do Mapa da Violência de 2014 mostram que os adolescentes são mais vítimas que responsáveis pela violência que apavora a população. Se há impunidade, a culpa não é da lei, mas dos responsáveis por sua aplicação.
            O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), saudado há 25 anos como uma das melhores leis do mundo em relação à criança e ao adolescente, é exigente com o adolescente em conflito com a lei e não compactua com a impunidade. As medidas socioeducativas nele previstas foram adotadas a partir do princípio de que todo adolescente infrator é recuperável, por mais grave que seja o delito que tenha cometido. Esse princípio está de pleno acordo com a fé cristã, que nos ensina a fazer a diferença entre o pecador e o pecado, amando o primeiro e condenando o segundo.
            Se aprovada a redução da maioridade penal, abrem-se as portas para o desrespeito a outros direitos da criança e do adolescente, colocando em xeque a Doutrina da Proteção Integral assegurada pelo ECA. Poderá haver um “efeito dominó” fazendo com que algumas violações aos direitos da criança e do adolescente deixem de ser crimes como a venda de bebida alcoólica, abusos sexuais, dentre outras.
            A comoção não é boa conselheira e, nesse caso, pode levar a decisões equivocadas com danos irreparáveis para muitas crianças e adolescentes, incidindo diretamente nas famílias e na sociedade. O caminho para pôr fim à condenável violência praticada por adolescentes passa, antes de tudo, por ações preventivas como educação de qualidade, em tempo integral; combate sistemático ao tráfico de drogas; proteção à família; criação, por parte dos poderes públicos e de nossas comunidades eclesiais, de espaços de convivência, visando a ocupação e a inclusão social de adolescentes e jovens por meio de lazer sadio e atividades educativas; reafirmação de valores como o amor, o perdão, a reconciliação, a responsabilidade e a paz.
            Consciente da importância de se dedicar mais tempo à reflexão sobre esse tema, também sob a luz do Evangelho, o Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, reunido em Brasília, nos dias 16 a 18 de junho, em consonância com a 53ª Assembleia Geral da CNBB, dirige esta mensagem a toda a sociedade brasileira, especialmente, às comunidades eclesiais, a fim de exortá-las a fazer uma opção clara em favor da criança e do adolescente. Digamos não à redução da maioridade penal e reivindiquemos das autoridades competentes o cumprimento do que estabelece o ECA para o adolescente em conflito com a lei.
            Que Nossa Senhora, a jovem de Nazaré, proteja as crianças e adolescentes do Brasil!
                                                                                           Brasília, 18 de junho de 2015.

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo S. R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia-BA
Vice-presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília-DF
Secretário Geral da CNBB


2.     Trecho da Nota oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sobre o momento nacional, de 24 de abril de 2015 (link oficial com o texto completo aqui)


           A PEC 171/1993, que propõe a redução da maioridade penal para 16 anos, já aprovada pela Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça da Câmara, também é um equívoco que precisa ser desfeito. A redução da maioridade penal não é solução para a violência que grassa no Brasil e reforça a política de encarceramento num país que já tem a quarta população carcerária do mundo. Investir em educação de qualidade e em políticas públicas para a juventude e para a família é meio eficaz para preservar os adolescentes da delinquência e da violência.
           O Estatuto da Criança e do Adolescente, em vigor há 25 anos, responsabiliza o adolescente, a partir dos 12 anos, por qualquer ato contra a lei, aplicando-lhe as medidas socioeducativas. Não procede, portanto, a alegada impunidade para adolescentes infratores. Onde essas medidas são corretamente aplicadas, o índice de reincidência do adolescente infrator é muito baixo. Ao invés de aprovarem a redução da maioridade penal, os parlamentares deveriam criar mecanismos que responsabilizem os gestores por não aparelharem seu governo para a correta aplicação das medidas socioeducativas.


3.     Nota oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sobre a redução da idade penal, de 16 de maio de 2013 (link oficial aqui)

            O debate sobre a redução da maioridade penal, colocado em evidência mais uma vez pela comoção provocada por crimes bárbaros cometidos por adolescentes, conclama-nos a uma profunda reflexão sobre nossa responsabilidade no combate à violência, na promoção da cultura da vida e da paz e no cuidado e proteção das novas gerações de nosso país.
            A delinquência juvenil é, antes de tudo, um aviso de que o Estado, a Sociedade e a Família não têm cumprido adequadamente seu dever de assegurar, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente, conforme estabelece o artigo 227 da Constituição Federal. Criminalizar o adolescente com penalidades no âmbito carcerário seria maquiar a verdadeira causa do problema, desviando a atenção com respostas simplórias, inconsequentes e desastrosas para a sociedade.
            A campanha sistemática de vários meios de comunicação a favor da redução da maioridade penal violenta a imagem dos adolescentes esquecendo-se de que eles são também vítimas da realidade injusta em que vivem. Eles não são os principais responsáveis pelo aumento da violência que nos assusta a todos, especialmente pelos crimes de homicídio. De acordo com a ONG Conectas Direitos Humanos, a maioria dos adolescentes internados na Fundação Casa, em São Paulo, foi detida por roubo (44,1%) e tráfico de drogas (41,8%). Já o crime de latrocínio atinge 0,9% e o de homicídio, 0,6%. É, portanto, imoral querer induzir a sociedade a olhar para o adolescente como se fosse o principal responsável pela onda de violência no país.
            O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao contrário do que se propaga injustamente, é exigente com o adolescente em conflito com a lei e não compactua com a impunidade. Ele reconhece a responsabilização do adolescente autor de ato infracional, mas acredita na sua recuperação, por isso propõe a aplicação das medidas socioeducativas que valorizam a pessoa e lhe favoreçam condições de autossuperação para retornar a sua vida normal na sociedade. À sociedade cabe exigir do Estado não só a efetiva implementação das medidas socioeducativas, mas também o investimento para uma educação de qualidade, além de políticas públicas que eliminem as desigualdades sociais. Junta-se a isto a necessidade de se combater corajosamente a praga das drogas e da complexa estrutura que a sustenta, causadora de inúmeras situações que levam os adolescentes à violência.
            Adotada em 42 países de 54 pesquisados pela UNICEF, a maioridade penal aos 18 anos “decorre das recomendações internacionais que sugerem a existência de um sistema de justiça especializado para julgar, processar e responsabilizar autores de delitos abaixo dos 18 anos” (UNICEF). Reduzi-la seria “ignorar o contexto da cláusula pétrea constitucional – Constituição Federal, art. 228 –, além de confrontar a Convenção dos Direitos da Criança e do Adolescente, as regras Mínimas de Beijing, as Diretrizes para Prevenção da Delinquência Juvenil, as Regras Mínimas para Proteção dos Menores Privados de Liberdade (Regras de Riad), o Pacto de San José da Costa Rica e o Estatuto da Criança e do Adolescente” (cf. Declaração da CNBB contra a redução da maioridade penal – 24.04.2009).
            O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunido em Brasília, nos dias 14 a 16 de maio, reafirma que a redução da maioridade não é a solução para o fim da violência. Ela é a negação da Doutrina da Proteção Integral que fundamenta o tratamento jurídico dispensado às crianças e adolescentes pelo Direito Brasileiro. A Igreja no Brasil continua acreditando na capacidade de regeneração do adolescente quando favorecido em seus direitos básicos e pelas oportunidades de formação integral nos valores que dignificam o ser humano.
            Não nos cansemos de combater a violência que é contrária ao Reino de Deus; ela “nunca está a serviço da humanidade, mas a desumaniza”, como nos recordava o papa Bento XVI (Angelus, 11 de março de 2012). Deus nos conceda a todos um coração materno que pulse com misericórdia e responsabilidade pela pessoa violentada em sua adolescência. Nossa Senhora Aparecida proteja nossos adolescentes e nos auxilie na defesa da família.
Brasília, 16 de maio de 2013.

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Presidente da CNBB em exercício

Dom Sergio Arthur Braschi

Bispo de Ponta Grossa

Vice-Presidente da CNBB em exercício

Dom Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB





4.     Discurso do Papa Francisco à delegação da Associação Internacional de Direito Penal (link oficial aqui e versão para download em pdf aqui)


Sala dos Papas
Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

                Ilustres Senhores e Senhoras!
            Saúdo-vos a todos cordialmente e desejo expressar-vos o meu agradecimento pessoal pelo vosso serviço à sociedade e a preciosa contribuição que dais ao desenvolvimento de uma justiça que respeite a dignidade e os direitos da pessoa humana, sem discriminações.
            Gostaria de partilhar convosco alguns aspectos de certas questões que, mesmo sendo opináveis — em parte! — dizem diretamente respeito à dignidade da pessoa humana e por conseguinte interpelam a Igreja na sua missão de evangelização, promoção humana, serviço à justiça e à paz. Fá-lo-ei de modo resumido e por capítulos, com um estilo bastante expositivo e sintético.

Introdução

            Antes de tudo pretendo apresentar duas premissas de natureza sociológica que dizem respeito à incitação à vingança e ao populismo penal.

            a) Incitação à vingança
            Na mitologia, assim como nas sociedades primitivas, a multidão descobre os poderes maléficos das suas vítimas sacrificais, acusadas das desgraças que atingem a comunidade. Esta dinâmica também está presente nas sociedades modernas. A realidade mostra que a existência de instrumentos legais e políticos necessários para enfrentar e resolver conflitos não oferece garantias suficientes para evitar que alguns indivíduos sejam considerados culpados dos problemas de todos.
           
    A vida em comum, estruturada em volta de comunidades organizadas, precisa de regras de convivência cuja livre violação exige uma resposta adequada. Contudo, vivemos em tempos nos quais, tanto por parte de alguns sectores da política como de certos meios de comunicação, por vezes se incita à violência e à vingança, pública e privada, não só contra quantos são responsáveis por ter cometido delitos, mas também contra aqueles sobre os quais recai a suspeita, fundada ou não, de ter infringido a lei.

            b) Populismo penal
            Neste contexto, difundiu-se nos últimos decénios a convicção de que através da pena pública se podem resolver todos os tipos de problemas sociais, como se para as doenças mais diversas nos fosse recomendado o mesmo remédio. Não se trata de confiança em qualquer função social tradicionalmente atribuída à pena pública, mas antes da convicção de que mediante tal pena se possam obter aqueles benefícios que exigiriam a implementação de outro tipo de política social, económica e de inclusão social.
Não se procuram apenas bodes expiatórios que paguem com a sua liberdade e com a sua vida por todos os males sociais, como era típico nas sociedades primitivas, mas além disso há por vezes a tendência a construir deliberadamente inimigos: figuras estereotipadas, que concentram em si todas as características que a sociedade sente ou interpreta como ameaçadoras. Os mecanismos de formação destas imagens são os mesmos que, outrora, permitiram a expansão das ideias raciais.

I. Sistemas penais fora de controle e a missão dos juristas
O princípio-guia da cautela in poenam

            Assim, o sistema penal vai além da sua função propriamente sancionatória para se colocar no terreno das liberdades e dos direitos das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis, em nome de uma finalidade preventiva cuja eficácia, até agora, não se pôde comprovar, nem sequer nas penas mais graves, como a pena de morte. Corre-se o risco de não conservar nem sequer a proporcionalidade das penas, que historicamente reflecte a escala de valores tutelados pelo Estado. Foi-se debilitando a concepção do direito penal como ultima ratio, como recurso à sanção, limitado aos factos mais graves contra os interesses individuais e colectivos mais dignos de protecção. Debilitou-se também o debate sobre a substituição da prisão com outras sanções penais alternativas. Neste contexto, a missão dos juristas pode ser unicamente a de limitar e conter tais tendências. É uma tarefa difícil, em tempos nos quais muitos juízes e agentes do sistema penal devem desempenhar a sua tarefa sob a pressão dos meios de comunicação de massa, de alguns políticos sem escrúpulos e das pulsões de vingança que se insinuam na sociedade. Quantos têm tal responsabilidade estão chamados a cumprir o seu dever, dado que não fazê-lo põe em perigo vidas humanas, que precisam de ser cuidadas com maior intrepidez de quanta se tem por vezes no cumprimento das próprias funções.

II. Sobre a primazia da vida e a dignidade da pessoa humana
Primatus principii pro homine

            a) Sobre a pena de morte
            É impossível imaginar que hoje os Estados não possam dispor de outro meio, que não seja a pena capital, para defender a vida de outras pessoas do agressor injusto.
            São João Paulo II condenou a pena de morte (cf. Carta enc. Evangelium vitae, 56), como também faz o Catecismo da Igreja Católica (n. 2267).
            Contudo, pode verificar-se que os Estados tirem a vida não só com a pena de morte e com as guerras, mas também quando oficiais públicos se refugiam à sombra dos poderes estatais para justificar os seus crimes. As chamadas execuções extrajudiciais ou extralegais são homicídios deliberados cometidos por alguns Estados e pelos seus agentes, com frequência feitos passar como confrontos com delinquentes ou apresentados como consequências indesejadas do uso razoável, necessário e proporcional da força para mandar aplicar a lei. Deste modo, mesmo se entre os 60 países nos quais a pena de morte está em vigor, 35 não a aplicaram nos últimos dez anos, a pena de morte, ilegalmente ou em diversos graus, aplica-se em todo o planeta.
            As mesmas execuções extrajudiciais são perpetradas de maneira sistemática não só pelos Estados da comunidade internacional, mas também por entidades não reconhecidas como tais, e representam autênticos crimes.
            Os argumentos contrários à pena de morte são muitos e bem conhecidos. A Igreja frisou oportunamente alguns deles, como a possibilidade da existência de erro judiciário e o uso que dela fazem os regimes totalitários e ditatoriais, que a utilizam como instrumento de supressão da dissidência política ou de perseguição das minorias religiosas e culturais, todas vítimas que para as suas respectivas legislações são “delinquentes”.
            Por conseguinte, todos os cristãos e homens de boa vontade estão chamados hoje a lutar não só pela abolição da pena de morte, legal ou ilegal, e em todas as suas formas, mas também para melhorar as condições carcerárias, no respeito pela dignidade humana das pessoas privadas da liberdade. E relaciono à prisão perpétua. No Vaticano, há pouco tempo, a prisão perpétua deixou de existir no Código penal. A prisão perpétua é uma pena de morte escondida.

            b) Sobre as condições da prisão dos presos sem condenação e dos condenados sem julgamento
            Não são fábulas, vós sabei-lo bem. A prisão preventiva — quando acontece de forma abusiva procura uma antecipação da pena, prévia à condenação, ou como medida que se aplica quando há a suspeita mais ou menos fundada de um delito cometido — constitui outra forma contemporânea de pena ilícita oculta, para além de uma aparência de legalidade.
            Esta situação é particularmente grave nalguns países e regiões do mundo, onde o número dos detidos sem condenação supera 50% do total. Este fenômeno contribui para um maior deterioramento das condições de detenção, situação que a construção de novas prisões nunca consegue resolver, dado que cada nova prisão já está cheia ainda antes de ser inaugurada. Além disso, é causa de um uso indevido de estações de polícia e militares como lugares de detenção.
            O problema dos detidos sem condenação deve ser enfrentado com a devida cautela, dado que se corre o risco de criar outro problema tão grave como o primeiro, ou até pior: o dos presos sem julgamento, condenados sem que sejam respeitadas as regras do processo.

            As deploráveis condições de detenção que se verificam em diversas partes do planeta constituem muitas vezes um autêntico aspecto desumano e degradante, sendo muitas vezes o produto das imperfeições do sistema penal, outras, da carência de infra-estruturas e de planificação, e em muitos casos mais não são que o resultado do exercício arbitrário e cruel do poder sobre as pessoas privadas da liberdade.

            c) Sobre a tortura e outras medidas e penas cruéis desumanas e degradantes
            O adjetivo “cruel”; por detrás destas figuras que mencionei, há sempre aquela raiz: a capacidade humana de crueldade. É uma paixão, uma verdadeira paixão! Por vezes, uma forma de tortura é a que se aplica mediante a reclusão em prisões de máxima segurança. Com o motivo de oferecer maior segurança à sociedade ou um tratamento especial para certas categorias de detidos, a sua principal característica mais não é que o isolamento do exterior. Como demonstram estudos realizados por diversos organismos de defesa dos direitos humanos, a falta de estímulos sensoriais, a impossibilidade total de comunicação e a falta de contatos com outros seres humanos causam sofrimentos psíquicos como a paranoia, a ansiedade, a depressão e a perda de peso e incrementam sensivelmente a tendência ao suicídio.
            Este fenômeno, característico das prisões de máxima segurança, verifica-se também noutros tipos de prisão, juntamente com outras formas de tortura física e psíquica cuja prática se difundiu. As torturas já não são praticadas apenas como meio para obter um determinado fim, como a confissão ou a denúncia — práticas características da doutrina da segurança nacional — mas constituem um autêntico plus de dor que se acrescenta aos males próprios da prisão preventiva. Desta forma, tortura-se não só em centros clandestinos de prisão ou em modernos campos de concentração, mas também em prisões, institutos para menores, hospitais psiquiátricos, comissariados e outros centros e instituições de detenção e pena.
            A própria doutrina penal tem uma importante responsabilidade nisto, como ter permitido em certos casos a legitimação da tortura com certos pressupostos, abrindo o caminho a abusos ulteriores e mais extensos.
            Muitos Estados são responsáveis também por terem praticado ou tolerado o sequestro de pessoas no próprio território, inclusive o de cidadãos dos seus respectivos países, ou por terem autorizado o uso do seu espaço aéreo para um transporte ilegal para centros de detenção nos quais se pratica a tortura.
            A estes abusos só poderá ser posto fim com o compromisso firme da comunidade internacional a reconhecer a primazia do princípio pro homine, ou seja, da dignidade da pessoa humana acima de tudo.

            d) Sobre a aplicação das sanções penais a crianças e idosos e a outras pessoas especialmente vulneráveis
            Os Estados devem abster-se de castigar penalmente as crianças, que ainda não completaram o seu desenvolvimento para a maturidade e por este motivo não podem ser acusadas. Ao contrário, elas devem as destinatárias de todos os privilégios que o Estado é capaz de oferecer, quer no que diz respeito a políticas de inclusão quer no respeitante a práticas que se orientam para fazer crescer nelas o respeito pela vida e pelos direitos dos outros.
            Os idosos, por seu lado, são aquelas pessoas que a partir dos seus erros podem oferecer ensinamentos ao resto da sociedade. Não se aprende apenas das virtudes dos santos, mas também das faltas e dos erros dos pecadores e, entre eles, de quantos, por um motivo ou por outro, caíram e cometeram delitos. Além disso, razões humanitárias impõem que, assim como se deve excluir ou limitar o castigo a quem sofre enfermidades graves ou terminais, a mulheres grávidas, a pessoas deficientes, a mães e pais que são os únicos responsáveis por menores ou deficientes, também os adultos de idade já avançada merecem tratamentos particulares.

III. Considerações sobre algumas formas de criminalidade que lesam gravemente a dignidade da pessoa e o bem comum

            Algumas formas de criminalidade, perpetradas por privados, lesam gravemente a dignidade das pessoas e o bem comum. Muitas destas formas de criminalidade nunca poderiam ser cometidas sem a cumplicidade, ativa ou omissiva, das autoridades públicas.

            a) Sobre o delito do tráfico de pessoas
            A escravidão, incluído o tráfico de pessoas, é reconhecido como delito contra a humanidade e como crime de guerra, quer pelo direito internacional quer por muitas legislações nacionais. É um delito de humanidade lesada. E, a partir do momento que não é possível cometer um delito tão complexo como o tráfico de pessoas sem a cumplicidade, com a ação ou a omissão, dos Estados, é evidente que, quando os esforços para prevenir ou combater este fenómeno não são suficientes, estamos de novo diante de um crime contra a humanidade. Mais ainda, se acontece que quem tem a função de proteger as pessoas e garantir a sua liberdade, se torna cúmplice dos que praticam o comércio de seres humanos, então, nestes casos, os Estados são responsáveis diante dos seus cidadãos e da comunidade internacional.

            Pode-se falar de um bilião de pessoas que vivem na pobreza absoluta. Um bilião e meio não tem acesso aos serviços higiênicos, à água potável, à eletricidade, à educação básica ou ao sistema de saúde e devem suportar privações econômicas incompatíveis com uma vida digna (2014 Human development Report, UNDP). Mesmo se o número total de pessoas nesta situação diminuiu nestes últimos anos, incrementou-se a sua vulnerabilidade, por causa do aumento das dificuldades que devem enfrentar para sair dessa situação.          Isto deve-se à quantidade sempre crescente de pessoas que vivem em países em conflito. Só no ano de 2013 quarenta e cinco milhões de pessoas foram obrigadas a fugir por causa de situações de violência ou perseguições; delas, quinze milhões são refugiados, o número mais elevado em dezoito anos. Destas pessoas, 70% são mulheres. Além disso, calcula-se que no mundo, de cada dez que morrem de fome, sete são mulheres e meninas (Fundo das Nações Unidas para as Mulheres, UNIFEM).

            b) Sobre o delito de corrupção
            A escandalosa concentração da riqueza global é possível por causa da conivência de responsáveis da gestão pública com os poderes fortes. A corrupção é ela mesma também um processo de morte: quando a vida morre, há corrupção.
            Há poucas coisas mais difíceis do que abrir uma fresta num coração corrupto: “Isso é o que acontece com aqueles que juntam riquezas para si mesmos, mas para Deus não são ricos” (Lc 12, 21). Quando a situação pessoal do corrupto se torna complicada, ele conhece todos os subterfúgios para a evitar, como fez o administrador desonesto do Evangelho (cf. Lc 16, 1-8).
            O corrupto atravessa a vida com os subterfúgios do oportunismo, com o ar de quem diz: “Não fui eu”, chegando a interiorizar a sua máscara de homem honesto. É um processo de interiorização. O corrupto não pode aceitar a crítica, desqualifica quem a faz, procura diminuir qualquer autoridade moral que o possa pôr em questão, não valoriza os outros e ataca com o insulto quem quer que pense de maneira diversa. Se as relações de força o permitirem, persegue todo aquele que o contradiz.
            A corrupção manifesta-se numa atmosfera de triunfalismo porque o corrupto se considera um vencedor. Naquele ambiente pavoneia-se para diminuir os outros.       O corrupto não sente a sua corrupção. Acontece como com o mau hálito: dificilmente quem o tem se apercebe de o ter; são os outros que o sentem e que lho devem dizer. Por este motivo, o corrupto dificilmente poderá sair do seu estado por remorso interno de consciência.
            A corrupção é um mal maior que o pecado. Mais do que perdoado, este mal deve ser curado. A corrupção tornou-se natural, a ponto de chegar a constituir um estado pessoal e social ligado ao costume, uma prática habitual nas transações comerciais e financeiras, nas empreitadas públicas, em cada negociação que envolva agentes do Estado. É a vitória das aparências sobre a realidade e do descaramento impudico sobre a discrição honrada.

            Contudo, o Senhor não se cansa de bater à porta dos corruptos. A corrupção nada pode contra a esperança.
            Que pode fazer o direito penal contra a corrupção? Já são muitas as convenções e os tratados internacionais sobre esta matéria e proliferaram as hipóteses de crime que se destinam a proteger não tanto os cidadãos, que afinal são as últimas vítimas — em particular os mais vulneráveis — quanto a tutelar os interesses dos agentes dos mercados econômicos e financeiros.
            A sanção penal é seletiva. É como uma rede que captura só os peixes pequenos, e deixa os grandes em liberdade no mar. As formas de corrupção que devem ser perseguidas com a maior severidade são as que causam graves danos sociais, quer em matéria econômica e social — como por exemplo graves fraudes contra a administração pública ou a prática desleal da administração — quer em qualquer tipo de obstáculo que se intrometa no funcionamento da justiça com a intenção de conseguir a impunidade para as próprias burlas ou para as de terceiros.

Conclusão
            A cautela na aplicação da pena deve ser o princípio que rege os sistemas penais, e o vigor e a aplicação plena do princípio pro homine devem garantir que os Estados não sejam habilitados, juridicamente ou em vias de facto, a subordinar o respeito da dignidade da pessoa humana a qualquer outra finalidade, mesmo quando se conseguir alcançar uma espécie qualquer de utilidade social. O respeito da dignidade humana deve agir não só como limite à arbitrariedade e aos excessos dos agentes do Estado, mas como critério de orientação para perseguir e reprimir aqueles comportamentos que representam os ataques mais graves à dignidade e integridade da pessoa humana.
            Queridos amigos, agradeço-vos de novo este encontro, e garanto-vos que continuarei a estar próximo do vosso trabalho exigente ao serviço do homem no âmbito da justiça. Não há dúvida de que, para quantos de vós estão chamados a viver a vocação cristã do próprio Batismo, este é um campo privilegiado de animação evangélica do mundo. Para todos, também para aqueles entre vós que não são cristãos, há contudo necessidade da ajuda de Deus, fonte de qualquer razão e justiça. Por conseguinte, invoco para cada um de vós, com a intercessão da Virgem Mãe, a luz e a força do Espírito Santo. Abençoo-vos de coração, e por favor peço-vos que rezeis por mim. Obrigado!


Material divulgado amplamente divulgado pela Pastoral da Juventude no Brasil sobre o tema