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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Oração da Igreja pelas autoridades políticas

Presidenta Dilma com os ex-presidentes atualmente vivos

     É dever de todo cristão católico rezar pelas autoridades políticas constituídas, concordando ou discordando de suas ações. Por isso que um católico que instiga o ódio ou debocha de uma autoridade política acaba dando um contratestemunho à sua fé. Rezar pelos que nos governam é uma forma até de misericórdia para com os mesmos, mostra que podemos optar por uma fé sólida, sem deixar de questionar os erros e elogiar os acertos.

      No catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1900, há uma oração pelas autoridades políticas do Papa São Clemente I (que governou a Igreja de 88 a 97).


       "Concedei-lhes, Senhor, a saúde, a paz, a concórdia, a estabilidade, para que exerçam sem entraves a soberania que lhes concedestes. Sois vós, Mestre, rei celeste dos séculos, quem dá aos filhos dos homens glória, honra e poder sobre as coisas da terra. Dirigi, Senhor, seu conselho segundo o que é bom, segundo o que é agradável a vossos olhos, a fim de que, exercendo com piedade, na paz e mansidão, o poder que lhes destes, vos encontrem propício."

       Não se esqueça que, durante a Oração para a Benção do Santíssimo, sempre rezamos "(...) pelo chefe da Nação e do Estado, e pelas pessoas constituídas em dignidade para que governem com justiça."

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A Igreja e a redução da maioridade penal [ATUALIZADO]

              Diante da polêmica acerca da Proposta de Emenda Constitucional 171/1993, de autoria do ex-deputado Benedito Domingos (PP-DF), que se encontra tramitando na Câmara dos Deputados, o recado vai para os católicos, já que é a maior religião professada no Brasil.

            Qual a posição oficial da Igreja sobre a redução da idade penal? Simples, a Igreja Católica é CONTRA a redução da idade penal. A estrutura do catolicismo, que prega a fidelidade e obediência ao Papa, ao Magistério e os bispos, deveria se tornar uma regra para seus fiéis. Momento para aquele que se diz católico e ainda é a favor da redução da maoridade penal, repensar seus conceitos, ou caso não se acerte com o pensamento da Igreja, repensar sua concepção de fé.
            Apresento um trecho e um documento oficial da CNBB sobre o tema e o discurso do Papa Francisco à delegação da Associação Internacional de Direito Penal, proferido no Vaticano. O discurso do papa também aborda as condições dos presos, pena de morte e outros temas polêmicos.

1.       Mensagem da CNBB sobre a redução da maioridade penal, de 18 de junho de 2015 (link oficial com o texto completo aqui)


 “Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

            Temos acompanhado, nos últimos dias, os intensos debates sobre a redução da maioridade penal, provocados pela votação desta matéria no Congresso Nacional. Trata-se de um tema de extrema importância porque diz respeito, de um lado, à segurança da população e, de outro, à promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente. É natural que a complexidade do tema deixe dividida a população que aspira por segurança. Afinal, ninguém pode compactuar com a violência, venha de onde vier.
            É preciso, no entanto, desfazer alguns equívocos que têm embasado a argumentação dos que defendem a redução da maioridade penal como, por exemplo, a afirmação de que há impunidade quando o adolescente comete um delito e que, com a redução da idade penal, se diminuirá a violência. No Brasil, a responsabilização penal do adolescente começa aos 12 anos. Dados do Mapa da Violência de 2014 mostram que os adolescentes são mais vítimas que responsáveis pela violência que apavora a população. Se há impunidade, a culpa não é da lei, mas dos responsáveis por sua aplicação.
            O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), saudado há 25 anos como uma das melhores leis do mundo em relação à criança e ao adolescente, é exigente com o adolescente em conflito com a lei e não compactua com a impunidade. As medidas socioeducativas nele previstas foram adotadas a partir do princípio de que todo adolescente infrator é recuperável, por mais grave que seja o delito que tenha cometido. Esse princípio está de pleno acordo com a fé cristã, que nos ensina a fazer a diferença entre o pecador e o pecado, amando o primeiro e condenando o segundo.
            Se aprovada a redução da maioridade penal, abrem-se as portas para o desrespeito a outros direitos da criança e do adolescente, colocando em xeque a Doutrina da Proteção Integral assegurada pelo ECA. Poderá haver um “efeito dominó” fazendo com que algumas violações aos direitos da criança e do adolescente deixem de ser crimes como a venda de bebida alcoólica, abusos sexuais, dentre outras.
            A comoção não é boa conselheira e, nesse caso, pode levar a decisões equivocadas com danos irreparáveis para muitas crianças e adolescentes, incidindo diretamente nas famílias e na sociedade. O caminho para pôr fim à condenável violência praticada por adolescentes passa, antes de tudo, por ações preventivas como educação de qualidade, em tempo integral; combate sistemático ao tráfico de drogas; proteção à família; criação, por parte dos poderes públicos e de nossas comunidades eclesiais, de espaços de convivência, visando a ocupação e a inclusão social de adolescentes e jovens por meio de lazer sadio e atividades educativas; reafirmação de valores como o amor, o perdão, a reconciliação, a responsabilidade e a paz.
            Consciente da importância de se dedicar mais tempo à reflexão sobre esse tema, também sob a luz do Evangelho, o Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, reunido em Brasília, nos dias 16 a 18 de junho, em consonância com a 53ª Assembleia Geral da CNBB, dirige esta mensagem a toda a sociedade brasileira, especialmente, às comunidades eclesiais, a fim de exortá-las a fazer uma opção clara em favor da criança e do adolescente. Digamos não à redução da maioridade penal e reivindiquemos das autoridades competentes o cumprimento do que estabelece o ECA para o adolescente em conflito com a lei.
            Que Nossa Senhora, a jovem de Nazaré, proteja as crianças e adolescentes do Brasil!
                                                                                           Brasília, 18 de junho de 2015.

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo S. R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia-BA
Vice-presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília-DF
Secretário Geral da CNBB


2.     Trecho da Nota oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sobre o momento nacional, de 24 de abril de 2015 (link oficial com o texto completo aqui)


           A PEC 171/1993, que propõe a redução da maioridade penal para 16 anos, já aprovada pela Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça da Câmara, também é um equívoco que precisa ser desfeito. A redução da maioridade penal não é solução para a violência que grassa no Brasil e reforça a política de encarceramento num país que já tem a quarta população carcerária do mundo. Investir em educação de qualidade e em políticas públicas para a juventude e para a família é meio eficaz para preservar os adolescentes da delinquência e da violência.
           O Estatuto da Criança e do Adolescente, em vigor há 25 anos, responsabiliza o adolescente, a partir dos 12 anos, por qualquer ato contra a lei, aplicando-lhe as medidas socioeducativas. Não procede, portanto, a alegada impunidade para adolescentes infratores. Onde essas medidas são corretamente aplicadas, o índice de reincidência do adolescente infrator é muito baixo. Ao invés de aprovarem a redução da maioridade penal, os parlamentares deveriam criar mecanismos que responsabilizem os gestores por não aparelharem seu governo para a correta aplicação das medidas socioeducativas.


3.     Nota oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sobre a redução da idade penal, de 16 de maio de 2013 (link oficial aqui)

            O debate sobre a redução da maioridade penal, colocado em evidência mais uma vez pela comoção provocada por crimes bárbaros cometidos por adolescentes, conclama-nos a uma profunda reflexão sobre nossa responsabilidade no combate à violência, na promoção da cultura da vida e da paz e no cuidado e proteção das novas gerações de nosso país.
            A delinquência juvenil é, antes de tudo, um aviso de que o Estado, a Sociedade e a Família não têm cumprido adequadamente seu dever de assegurar, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente, conforme estabelece o artigo 227 da Constituição Federal. Criminalizar o adolescente com penalidades no âmbito carcerário seria maquiar a verdadeira causa do problema, desviando a atenção com respostas simplórias, inconsequentes e desastrosas para a sociedade.
            A campanha sistemática de vários meios de comunicação a favor da redução da maioridade penal violenta a imagem dos adolescentes esquecendo-se de que eles são também vítimas da realidade injusta em que vivem. Eles não são os principais responsáveis pelo aumento da violência que nos assusta a todos, especialmente pelos crimes de homicídio. De acordo com a ONG Conectas Direitos Humanos, a maioria dos adolescentes internados na Fundação Casa, em São Paulo, foi detida por roubo (44,1%) e tráfico de drogas (41,8%). Já o crime de latrocínio atinge 0,9% e o de homicídio, 0,6%. É, portanto, imoral querer induzir a sociedade a olhar para o adolescente como se fosse o principal responsável pela onda de violência no país.
            O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao contrário do que se propaga injustamente, é exigente com o adolescente em conflito com a lei e não compactua com a impunidade. Ele reconhece a responsabilização do adolescente autor de ato infracional, mas acredita na sua recuperação, por isso propõe a aplicação das medidas socioeducativas que valorizam a pessoa e lhe favoreçam condições de autossuperação para retornar a sua vida normal na sociedade. À sociedade cabe exigir do Estado não só a efetiva implementação das medidas socioeducativas, mas também o investimento para uma educação de qualidade, além de políticas públicas que eliminem as desigualdades sociais. Junta-se a isto a necessidade de se combater corajosamente a praga das drogas e da complexa estrutura que a sustenta, causadora de inúmeras situações que levam os adolescentes à violência.
            Adotada em 42 países de 54 pesquisados pela UNICEF, a maioridade penal aos 18 anos “decorre das recomendações internacionais que sugerem a existência de um sistema de justiça especializado para julgar, processar e responsabilizar autores de delitos abaixo dos 18 anos” (UNICEF). Reduzi-la seria “ignorar o contexto da cláusula pétrea constitucional – Constituição Federal, art. 228 –, além de confrontar a Convenção dos Direitos da Criança e do Adolescente, as regras Mínimas de Beijing, as Diretrizes para Prevenção da Delinquência Juvenil, as Regras Mínimas para Proteção dos Menores Privados de Liberdade (Regras de Riad), o Pacto de San José da Costa Rica e o Estatuto da Criança e do Adolescente” (cf. Declaração da CNBB contra a redução da maioridade penal – 24.04.2009).
            O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunido em Brasília, nos dias 14 a 16 de maio, reafirma que a redução da maioridade não é a solução para o fim da violência. Ela é a negação da Doutrina da Proteção Integral que fundamenta o tratamento jurídico dispensado às crianças e adolescentes pelo Direito Brasileiro. A Igreja no Brasil continua acreditando na capacidade de regeneração do adolescente quando favorecido em seus direitos básicos e pelas oportunidades de formação integral nos valores que dignificam o ser humano.
            Não nos cansemos de combater a violência que é contrária ao Reino de Deus; ela “nunca está a serviço da humanidade, mas a desumaniza”, como nos recordava o papa Bento XVI (Angelus, 11 de março de 2012). Deus nos conceda a todos um coração materno que pulse com misericórdia e responsabilidade pela pessoa violentada em sua adolescência. Nossa Senhora Aparecida proteja nossos adolescentes e nos auxilie na defesa da família.
Brasília, 16 de maio de 2013.

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Presidente da CNBB em exercício

Dom Sergio Arthur Braschi

Bispo de Ponta Grossa

Vice-Presidente da CNBB em exercício

Dom Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB





4.     Discurso do Papa Francisco à delegação da Associação Internacional de Direito Penal (link oficial aqui e versão para download em pdf aqui)


Sala dos Papas
Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

                Ilustres Senhores e Senhoras!
            Saúdo-vos a todos cordialmente e desejo expressar-vos o meu agradecimento pessoal pelo vosso serviço à sociedade e a preciosa contribuição que dais ao desenvolvimento de uma justiça que respeite a dignidade e os direitos da pessoa humana, sem discriminações.
            Gostaria de partilhar convosco alguns aspectos de certas questões que, mesmo sendo opináveis — em parte! — dizem diretamente respeito à dignidade da pessoa humana e por conseguinte interpelam a Igreja na sua missão de evangelização, promoção humana, serviço à justiça e à paz. Fá-lo-ei de modo resumido e por capítulos, com um estilo bastante expositivo e sintético.

Introdução

            Antes de tudo pretendo apresentar duas premissas de natureza sociológica que dizem respeito à incitação à vingança e ao populismo penal.

            a) Incitação à vingança
            Na mitologia, assim como nas sociedades primitivas, a multidão descobre os poderes maléficos das suas vítimas sacrificais, acusadas das desgraças que atingem a comunidade. Esta dinâmica também está presente nas sociedades modernas. A realidade mostra que a existência de instrumentos legais e políticos necessários para enfrentar e resolver conflitos não oferece garantias suficientes para evitar que alguns indivíduos sejam considerados culpados dos problemas de todos.
           
    A vida em comum, estruturada em volta de comunidades organizadas, precisa de regras de convivência cuja livre violação exige uma resposta adequada. Contudo, vivemos em tempos nos quais, tanto por parte de alguns sectores da política como de certos meios de comunicação, por vezes se incita à violência e à vingança, pública e privada, não só contra quantos são responsáveis por ter cometido delitos, mas também contra aqueles sobre os quais recai a suspeita, fundada ou não, de ter infringido a lei.

            b) Populismo penal
            Neste contexto, difundiu-se nos últimos decénios a convicção de que através da pena pública se podem resolver todos os tipos de problemas sociais, como se para as doenças mais diversas nos fosse recomendado o mesmo remédio. Não se trata de confiança em qualquer função social tradicionalmente atribuída à pena pública, mas antes da convicção de que mediante tal pena se possam obter aqueles benefícios que exigiriam a implementação de outro tipo de política social, económica e de inclusão social.
Não se procuram apenas bodes expiatórios que paguem com a sua liberdade e com a sua vida por todos os males sociais, como era típico nas sociedades primitivas, mas além disso há por vezes a tendência a construir deliberadamente inimigos: figuras estereotipadas, que concentram em si todas as características que a sociedade sente ou interpreta como ameaçadoras. Os mecanismos de formação destas imagens são os mesmos que, outrora, permitiram a expansão das ideias raciais.

I. Sistemas penais fora de controle e a missão dos juristas
O princípio-guia da cautela in poenam

            Assim, o sistema penal vai além da sua função propriamente sancionatória para se colocar no terreno das liberdades e dos direitos das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis, em nome de uma finalidade preventiva cuja eficácia, até agora, não se pôde comprovar, nem sequer nas penas mais graves, como a pena de morte. Corre-se o risco de não conservar nem sequer a proporcionalidade das penas, que historicamente reflecte a escala de valores tutelados pelo Estado. Foi-se debilitando a concepção do direito penal como ultima ratio, como recurso à sanção, limitado aos factos mais graves contra os interesses individuais e colectivos mais dignos de protecção. Debilitou-se também o debate sobre a substituição da prisão com outras sanções penais alternativas. Neste contexto, a missão dos juristas pode ser unicamente a de limitar e conter tais tendências. É uma tarefa difícil, em tempos nos quais muitos juízes e agentes do sistema penal devem desempenhar a sua tarefa sob a pressão dos meios de comunicação de massa, de alguns políticos sem escrúpulos e das pulsões de vingança que se insinuam na sociedade. Quantos têm tal responsabilidade estão chamados a cumprir o seu dever, dado que não fazê-lo põe em perigo vidas humanas, que precisam de ser cuidadas com maior intrepidez de quanta se tem por vezes no cumprimento das próprias funções.

II. Sobre a primazia da vida e a dignidade da pessoa humana
Primatus principii pro homine

            a) Sobre a pena de morte
            É impossível imaginar que hoje os Estados não possam dispor de outro meio, que não seja a pena capital, para defender a vida de outras pessoas do agressor injusto.
            São João Paulo II condenou a pena de morte (cf. Carta enc. Evangelium vitae, 56), como também faz o Catecismo da Igreja Católica (n. 2267).
            Contudo, pode verificar-se que os Estados tirem a vida não só com a pena de morte e com as guerras, mas também quando oficiais públicos se refugiam à sombra dos poderes estatais para justificar os seus crimes. As chamadas execuções extrajudiciais ou extralegais são homicídios deliberados cometidos por alguns Estados e pelos seus agentes, com frequência feitos passar como confrontos com delinquentes ou apresentados como consequências indesejadas do uso razoável, necessário e proporcional da força para mandar aplicar a lei. Deste modo, mesmo se entre os 60 países nos quais a pena de morte está em vigor, 35 não a aplicaram nos últimos dez anos, a pena de morte, ilegalmente ou em diversos graus, aplica-se em todo o planeta.
            As mesmas execuções extrajudiciais são perpetradas de maneira sistemática não só pelos Estados da comunidade internacional, mas também por entidades não reconhecidas como tais, e representam autênticos crimes.
            Os argumentos contrários à pena de morte são muitos e bem conhecidos. A Igreja frisou oportunamente alguns deles, como a possibilidade da existência de erro judiciário e o uso que dela fazem os regimes totalitários e ditatoriais, que a utilizam como instrumento de supressão da dissidência política ou de perseguição das minorias religiosas e culturais, todas vítimas que para as suas respectivas legislações são “delinquentes”.
            Por conseguinte, todos os cristãos e homens de boa vontade estão chamados hoje a lutar não só pela abolição da pena de morte, legal ou ilegal, e em todas as suas formas, mas também para melhorar as condições carcerárias, no respeito pela dignidade humana das pessoas privadas da liberdade. E relaciono à prisão perpétua. No Vaticano, há pouco tempo, a prisão perpétua deixou de existir no Código penal. A prisão perpétua é uma pena de morte escondida.

            b) Sobre as condições da prisão dos presos sem condenação e dos condenados sem julgamento
            Não são fábulas, vós sabei-lo bem. A prisão preventiva — quando acontece de forma abusiva procura uma antecipação da pena, prévia à condenação, ou como medida que se aplica quando há a suspeita mais ou menos fundada de um delito cometido — constitui outra forma contemporânea de pena ilícita oculta, para além de uma aparência de legalidade.
            Esta situação é particularmente grave nalguns países e regiões do mundo, onde o número dos detidos sem condenação supera 50% do total. Este fenômeno contribui para um maior deterioramento das condições de detenção, situação que a construção de novas prisões nunca consegue resolver, dado que cada nova prisão já está cheia ainda antes de ser inaugurada. Além disso, é causa de um uso indevido de estações de polícia e militares como lugares de detenção.
            O problema dos detidos sem condenação deve ser enfrentado com a devida cautela, dado que se corre o risco de criar outro problema tão grave como o primeiro, ou até pior: o dos presos sem julgamento, condenados sem que sejam respeitadas as regras do processo.

            As deploráveis condições de detenção que se verificam em diversas partes do planeta constituem muitas vezes um autêntico aspecto desumano e degradante, sendo muitas vezes o produto das imperfeições do sistema penal, outras, da carência de infra-estruturas e de planificação, e em muitos casos mais não são que o resultado do exercício arbitrário e cruel do poder sobre as pessoas privadas da liberdade.

            c) Sobre a tortura e outras medidas e penas cruéis desumanas e degradantes
            O adjetivo “cruel”; por detrás destas figuras que mencionei, há sempre aquela raiz: a capacidade humana de crueldade. É uma paixão, uma verdadeira paixão! Por vezes, uma forma de tortura é a que se aplica mediante a reclusão em prisões de máxima segurança. Com o motivo de oferecer maior segurança à sociedade ou um tratamento especial para certas categorias de detidos, a sua principal característica mais não é que o isolamento do exterior. Como demonstram estudos realizados por diversos organismos de defesa dos direitos humanos, a falta de estímulos sensoriais, a impossibilidade total de comunicação e a falta de contatos com outros seres humanos causam sofrimentos psíquicos como a paranoia, a ansiedade, a depressão e a perda de peso e incrementam sensivelmente a tendência ao suicídio.
            Este fenômeno, característico das prisões de máxima segurança, verifica-se também noutros tipos de prisão, juntamente com outras formas de tortura física e psíquica cuja prática se difundiu. As torturas já não são praticadas apenas como meio para obter um determinado fim, como a confissão ou a denúncia — práticas características da doutrina da segurança nacional — mas constituem um autêntico plus de dor que se acrescenta aos males próprios da prisão preventiva. Desta forma, tortura-se não só em centros clandestinos de prisão ou em modernos campos de concentração, mas também em prisões, institutos para menores, hospitais psiquiátricos, comissariados e outros centros e instituições de detenção e pena.
            A própria doutrina penal tem uma importante responsabilidade nisto, como ter permitido em certos casos a legitimação da tortura com certos pressupostos, abrindo o caminho a abusos ulteriores e mais extensos.
            Muitos Estados são responsáveis também por terem praticado ou tolerado o sequestro de pessoas no próprio território, inclusive o de cidadãos dos seus respectivos países, ou por terem autorizado o uso do seu espaço aéreo para um transporte ilegal para centros de detenção nos quais se pratica a tortura.
            A estes abusos só poderá ser posto fim com o compromisso firme da comunidade internacional a reconhecer a primazia do princípio pro homine, ou seja, da dignidade da pessoa humana acima de tudo.

            d) Sobre a aplicação das sanções penais a crianças e idosos e a outras pessoas especialmente vulneráveis
            Os Estados devem abster-se de castigar penalmente as crianças, que ainda não completaram o seu desenvolvimento para a maturidade e por este motivo não podem ser acusadas. Ao contrário, elas devem as destinatárias de todos os privilégios que o Estado é capaz de oferecer, quer no que diz respeito a políticas de inclusão quer no respeitante a práticas que se orientam para fazer crescer nelas o respeito pela vida e pelos direitos dos outros.
            Os idosos, por seu lado, são aquelas pessoas que a partir dos seus erros podem oferecer ensinamentos ao resto da sociedade. Não se aprende apenas das virtudes dos santos, mas também das faltas e dos erros dos pecadores e, entre eles, de quantos, por um motivo ou por outro, caíram e cometeram delitos. Além disso, razões humanitárias impõem que, assim como se deve excluir ou limitar o castigo a quem sofre enfermidades graves ou terminais, a mulheres grávidas, a pessoas deficientes, a mães e pais que são os únicos responsáveis por menores ou deficientes, também os adultos de idade já avançada merecem tratamentos particulares.

III. Considerações sobre algumas formas de criminalidade que lesam gravemente a dignidade da pessoa e o bem comum

            Algumas formas de criminalidade, perpetradas por privados, lesam gravemente a dignidade das pessoas e o bem comum. Muitas destas formas de criminalidade nunca poderiam ser cometidas sem a cumplicidade, ativa ou omissiva, das autoridades públicas.

            a) Sobre o delito do tráfico de pessoas
            A escravidão, incluído o tráfico de pessoas, é reconhecido como delito contra a humanidade e como crime de guerra, quer pelo direito internacional quer por muitas legislações nacionais. É um delito de humanidade lesada. E, a partir do momento que não é possível cometer um delito tão complexo como o tráfico de pessoas sem a cumplicidade, com a ação ou a omissão, dos Estados, é evidente que, quando os esforços para prevenir ou combater este fenómeno não são suficientes, estamos de novo diante de um crime contra a humanidade. Mais ainda, se acontece que quem tem a função de proteger as pessoas e garantir a sua liberdade, se torna cúmplice dos que praticam o comércio de seres humanos, então, nestes casos, os Estados são responsáveis diante dos seus cidadãos e da comunidade internacional.

            Pode-se falar de um bilião de pessoas que vivem na pobreza absoluta. Um bilião e meio não tem acesso aos serviços higiênicos, à água potável, à eletricidade, à educação básica ou ao sistema de saúde e devem suportar privações econômicas incompatíveis com uma vida digna (2014 Human development Report, UNDP). Mesmo se o número total de pessoas nesta situação diminuiu nestes últimos anos, incrementou-se a sua vulnerabilidade, por causa do aumento das dificuldades que devem enfrentar para sair dessa situação.          Isto deve-se à quantidade sempre crescente de pessoas que vivem em países em conflito. Só no ano de 2013 quarenta e cinco milhões de pessoas foram obrigadas a fugir por causa de situações de violência ou perseguições; delas, quinze milhões são refugiados, o número mais elevado em dezoito anos. Destas pessoas, 70% são mulheres. Além disso, calcula-se que no mundo, de cada dez que morrem de fome, sete são mulheres e meninas (Fundo das Nações Unidas para as Mulheres, UNIFEM).

            b) Sobre o delito de corrupção
            A escandalosa concentração da riqueza global é possível por causa da conivência de responsáveis da gestão pública com os poderes fortes. A corrupção é ela mesma também um processo de morte: quando a vida morre, há corrupção.
            Há poucas coisas mais difíceis do que abrir uma fresta num coração corrupto: “Isso é o que acontece com aqueles que juntam riquezas para si mesmos, mas para Deus não são ricos” (Lc 12, 21). Quando a situação pessoal do corrupto se torna complicada, ele conhece todos os subterfúgios para a evitar, como fez o administrador desonesto do Evangelho (cf. Lc 16, 1-8).
            O corrupto atravessa a vida com os subterfúgios do oportunismo, com o ar de quem diz: “Não fui eu”, chegando a interiorizar a sua máscara de homem honesto. É um processo de interiorização. O corrupto não pode aceitar a crítica, desqualifica quem a faz, procura diminuir qualquer autoridade moral que o possa pôr em questão, não valoriza os outros e ataca com o insulto quem quer que pense de maneira diversa. Se as relações de força o permitirem, persegue todo aquele que o contradiz.
            A corrupção manifesta-se numa atmosfera de triunfalismo porque o corrupto se considera um vencedor. Naquele ambiente pavoneia-se para diminuir os outros.       O corrupto não sente a sua corrupção. Acontece como com o mau hálito: dificilmente quem o tem se apercebe de o ter; são os outros que o sentem e que lho devem dizer. Por este motivo, o corrupto dificilmente poderá sair do seu estado por remorso interno de consciência.
            A corrupção é um mal maior que o pecado. Mais do que perdoado, este mal deve ser curado. A corrupção tornou-se natural, a ponto de chegar a constituir um estado pessoal e social ligado ao costume, uma prática habitual nas transações comerciais e financeiras, nas empreitadas públicas, em cada negociação que envolva agentes do Estado. É a vitória das aparências sobre a realidade e do descaramento impudico sobre a discrição honrada.

            Contudo, o Senhor não se cansa de bater à porta dos corruptos. A corrupção nada pode contra a esperança.
            Que pode fazer o direito penal contra a corrupção? Já são muitas as convenções e os tratados internacionais sobre esta matéria e proliferaram as hipóteses de crime que se destinam a proteger não tanto os cidadãos, que afinal são as últimas vítimas — em particular os mais vulneráveis — quanto a tutelar os interesses dos agentes dos mercados econômicos e financeiros.
            A sanção penal é seletiva. É como uma rede que captura só os peixes pequenos, e deixa os grandes em liberdade no mar. As formas de corrupção que devem ser perseguidas com a maior severidade são as que causam graves danos sociais, quer em matéria econômica e social — como por exemplo graves fraudes contra a administração pública ou a prática desleal da administração — quer em qualquer tipo de obstáculo que se intrometa no funcionamento da justiça com a intenção de conseguir a impunidade para as próprias burlas ou para as de terceiros.

Conclusão
            A cautela na aplicação da pena deve ser o princípio que rege os sistemas penais, e o vigor e a aplicação plena do princípio pro homine devem garantir que os Estados não sejam habilitados, juridicamente ou em vias de facto, a subordinar o respeito da dignidade da pessoa humana a qualquer outra finalidade, mesmo quando se conseguir alcançar uma espécie qualquer de utilidade social. O respeito da dignidade humana deve agir não só como limite à arbitrariedade e aos excessos dos agentes do Estado, mas como critério de orientação para perseguir e reprimir aqueles comportamentos que representam os ataques mais graves à dignidade e integridade da pessoa humana.
            Queridos amigos, agradeço-vos de novo este encontro, e garanto-vos que continuarei a estar próximo do vosso trabalho exigente ao serviço do homem no âmbito da justiça. Não há dúvida de que, para quantos de vós estão chamados a viver a vocação cristã do próprio Batismo, este é um campo privilegiado de animação evangélica do mundo. Para todos, também para aqueles entre vós que não são cristãos, há contudo necessidade da ajuda de Deus, fonte de qualquer razão e justiça. Por conseguinte, invoco para cada um de vós, com a intercessão da Virgem Mãe, a luz e a força do Espírito Santo. Abençoo-vos de coração, e por favor peço-vos que rezeis por mim. Obrigado!


Material divulgado amplamente divulgado pela Pastoral da Juventude no Brasil sobre o tema

segunda-feira, 9 de março de 2015

Entrevista - Transexuais e religião

            No dia 24 de janeiro do presente ano, o papa Francisco recebeu em audiência privada o sr. Diego Neria Lejarraga. Seria algo até comum pois segundo a tradição cristã qualquer católico pode solicitar uma audiência com o Santo Padre se não fosse por um pequeno detalhe: Diego é transexual. Ele vive na cidade de Plascencia, na comuna de Estremadura.
Diego Neria (à direita), transexual recebido no Vaticano
               O caso reascendeu um debate nos meios católicos, principalmente sobre como as religiões lidam com a transexualidade. A despeito do que o catolicismo fala sobre o assunto, eu procurei ir num caminho diferente: entrevistei por e-mail duas transexuais (Lirous e Fabrizia) e uma trânsgenero (Gisele), fazendo perguntas sobre o modo como elas vêem a religião. O resultado você pode conferir abaixo:


Nome: Lirous K'yo Fonseca Ávila

Idade: 32 anos
Ocupação: Estudante de Serviço Social e Coordenadora da ADEH (Associação de Direitos Humanos com enfoque na sexualidade)
Cidade: Florianópolis-SC
Um lema de vida: "Se algo não é obviamente impossível, então deve haver uma maneira de fazer." Nicholas Winton

1) Qual sua formação religiosa?
            Eu me criei dentro da igreja católica e sempre com muita  vontade de seguir uma possível "carreira religiosa". Expressava desde criança quando brincava de "Missa" em casa com minhas pelúcias e bonecos de guerra.

2) Sua concepção de Deus é...
            Não acredito em um Deus personificado, acredito numa grande energia que nos movimenta, no fundo acredito que todos juntos somos Deus, e que estamos todos ligados com o universo.

3) Fale-me experiências (sejam positivas e/ou negativas) que você teve com a religião.
            A religião ao mesmo tempo que me acolhia, me excluía, tive fases na minha vida que me deixaram um pouco decepcionadas com as pessoas que faziam parte dela, pois sempre imaginei que quem estava dentro da carreira, sendo padre, irmãos, e afins, deveriam ter um grau de espiritualidade elevado e isso me foi comprovado que não. 
            Enquanto criança, que tinha a voz de "castrato", eu era boa o suficiente para estar junto, mas logo que o meu corpo começou a se modificar espontaneamente na puberdade, já não era mais boa o suficiente para estar ao lado dos irmãos La Sallistas. Sofri com a modificação corporal na minha puberdade quando o meu corpo começou a criar formas sem qualquer uso de medicação e por não ter uma explicação lógica, acabei sendo convidada a me retirar do espaço que frequentava, nesse caso a escola.
            Após isso fui conhecer outros espaços religiosos, não necessariamente católico ou Cristão e cheguei a conclusão que todas as religiões tem muita coisa em comum, que acreditam de formas diferentes e que carregam com elas um pouquinho da "verdade". Não acredito mais em uma religião absoluta que seja a dona da verdade, pois não há.
            Com o passar dos anos, os homens corromperam muito essa verdade a favor dos seus próprios benefícios.
            Acredito que a elevação espiritual é importante indiferente da religião, desde que seja para benefício próprio espiritual, sem ferir o outro. Todas as religiões fazem um papel importante se o indivíduo se permitir, o problema é que no meio disso, muitos dos seus dirigentes se aproveitam dos mais frágeis para poder viver de uma maneira mais confortável dentro do nosso sistema capitalista, tornando grandes templos em comércios.

4) Faça uma análise da religião e seu papel na sociedade hoje. Ela é importante? Sim? Não? Justifique
            O papel da religião deve ser restrito a isso, espiritualizar, discordo da religião interferir na política por ideologias próprias e acho obsoleto a participação dela em pontos estratégicos para que se mantenha a alienação do povo e que continuem subtraindo dinheiro daqueles que menos tem para benefício próprio, cito com isso as religiões que tem esse propósito. Vejo profissionais que levam suas crenças para suas mesas de trabalho como juízes, psicólogos, médicos... esse profissionais levam suas ideologias prejudicando outras pessoas com o intuito de querer salvar ou ajudar, sendo que esse não é o papel deles, vão se reconhecer fazendo algo útil, quando estiverem com suas mentes voltadas para a sua melhora/correção e não se preocupando com a correção do outro. 
            Muitas das religiões possuem ideologias exatas e não humanas, onde não existe uma possibilidade de questionamento, respondendo as perguntas por que sim, e se você duvida, é porque você vive em pecado. Meu Deus não é um ser punitivo, vingativo ou castrador, e a energia que movimenta tudo em todos os espaços e inclusive me fez da forma que eu sou hoje. Acredito mais na lei de ação e reação apontada pelo Alan Kardec do que este Deus que passa castigando as pessoas pelo mundo. As pessoas colhem o que plantam e a intervenção de Deus é mínima nesses casos. 
            Se tivermos pessoas "espiritualizadas", digo pessoas com pensamentos coesos e pelo bem de toda uma sociedade sem exclusão, teremos essas pessoas atuando nas pontas como no serviço social, educação, assistência, saúde, políticas, e aí sim, estaremos em uma era de evolução e não mais de exploração.
              No momento que o nosso pensamento, ideologia, ou ideia de sistema prejudica uma pessoa, ele já não é mais uma boa ideia e devem ser reformuladas.

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Nome completo: Gisele Ducav
Idade: 28 anos
Cidade: Concórdia-SC
Profissão / Ocupação: Médica-veterinária
Um lema de vida: Fazer sempre o bem, sem saber a quem!

1) Qual sua formação religiosa?
            Posso dizer que meu avô paterno, que faleceu quando eu tinha sete anos de idade, foi o responsável para uma formação religiosa sólida e persistente.  Foi ele quem me ensinou a rezar, a frequentar a missa, o respeito para com Deus e sem perceber- também me ensinou a devoção à Virgem Maria. Na cabeceira da cama dele, lembro-me que havia um quadro com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Por vezes, no meio da noite, meu avô padecendo das dores de uma úlcera de estômago e do câncer, clamava para que Ela o "levasse", para aliviar sua dor. Na adolescência, acabei me afastando da religiosidade. Todavia, agora em vida adulta, ela volta com mais fervor e estou mais consciente e madura quanto a necessidade da presença constante de Deus em nossas vidas.

2) Sua concepção de Deus é...
            Ser perfeitíssimo, criador do Céu e da Terra, fonte de amor, justiça e humildade inesgotáveis.

3) Fale-me experiências (sejam positivas e/ou negativas) que você teve com a religião.
            Felizmente, não tive experiências negativas pessoais com a pluralidade de religiões existentes. Porém ouço e vejo muitos atos os quais não condeno- pois não sou Deus, mas desaprovo. A intolerância religiosa, o extremismo, o charlatanismo são atitudes que fazem mal ao próximo e por conseguinte, às nações. E há aqueles que sequer acreditam em Deus. Sempre recorro às forças maiores, em situações de sossego ou em momentos que necessito de ajuda. E não me canso de agradecer sempre- por tudo e por todos, desde as coisas mais simples até as conquistas mais soberanas.

4) Faça uma análise da religião e seu papel na sociedade hoje. Ela é importante? Sim? Não? Justifique
            Acredito que a religião seja mais importante para cada pessoa em si, do que para sociedade como um todo. Veem-se ataques constantes entre religiões, fruto de pura ignorância. Deus é um só. Não existe a mais certa ou errada, a melhor ou a pior. Pois, no final, tudo será entre Deus e você, ninguém mais. O que eu, como um ser único criado por Deus, independente da religião, fiz hoje de bom à Humanidade hoje?

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Nome:  Fabrízia de Souza Felipe
Idade: 31
Cidade: Florianópolis-SC
Profissão/Ocupação: Acadêmica de Letras-Alemão da UFSC e Diretora Financeira da ADEH (Associação de Direitos Humanos com enfoque na sexualidade)
Um lema de Vida: Viver Intensamente, respeitando e sempre se colocando no lugar do outro. 

1) Qual sua formação religiosa?
            Fui criada na católica, porem hoje não sigo nenhuma religião.

2) Sua concepção de Deus é...
            Acredito em Deus. mas não na Bíblia. Acredito e sigo alguns ensinamentos como:
 *   perdoai-vos uns aos outros;
*  não julgar o próximo; 
amar o próximo. 

3) Fale-me experiências (sejam positivas e/ou negativas) que você teve com a religião.
            Não sigo uma religião, não pela religião, mas sim pelos representantes das religiões.
            Alguns representantes, ao invés de passarem coisas boas, disseminarem o amor, a fé, a união entre outras coisas, ficam disseminando o contrário: o ódio, o que acham que é certo ou errado. Por esse motivo fico desacreditada com as religiões. 

4) Faça uma análise da religião e seu papel na sociedade hoje. Ela é importante? Sim? Não? Justifique
            Hoje o catolicismo tem um representante que está sendo muito importante para esse momento em que estamos vivendo. O Papa Francisco, além de sua sensibilidade, tem uma percepção, uma visão diferenciada. acho que ele tem sido um excelente representante.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Os padres e a política partidária


Passando o afã das eleições gerais de 2014, onde vimos o destilamento do ódio sem precedentes, queria convidá-los a uma reflexão séria e madura sobre uma pequena problemática que notei nas hostes políticas: a relação de clérigos católicos e partidos políticos.
            Em um determinado momento da campanha política, por curiosidade entrei no perfil de um sacerdote católico pertencente à Arquidiocese de Florianópolis, onde o mesmo soltava sua verborragia contra um determinado partido político. Mais o que mais notei foram os comentários a postagem desse sacerdote, onde claramente percebi uma divisão e muitas vezes brigas entre os comentaristas. Fiquei intrigado com aquilo, pois, tratando-se de um padre católico, sua linha de reflexão deveria ser sim combativa, denunciativa, mas ao mesmo tempo uma promoção do Reino de Deus, onde a paz e a solidariedade deveriam reinar. Cometi o erro de questionar a conduta dele como sacerdote e recebi pouco tempo uma grosseria do mesmo, onde ele palavras como “merda” dentre outros termos de baixo calão surgiram.
            Quem conhece minha história de vida sabe que fui filiado a partido político em um passado não muito distante e militei de forma assídua. Acontece que ao reingressar no seminário procurei não opinar sobre o assunto a fim de não causar mais escândalos. Diz em Lc 17,1-2: “É inevitável que aconteçam escândalos. Mas ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos.”
Papa Leão XIII e fac-símile da encíclica "Rerum Novarum"
que condena tanto o capitalismo quanto o socialismo
            Sabemos que não há como falar de política sem paixão, por isso um sacerdote deve ter o cuidado muito delicado ao abordar esse tema, principalmente quando cai em opiniões sobre determinados partidos políticos. É de conhecimento (ou pelo menos deveria ser) dos sacerdotes os documentos papais que tratam da política juntamente com a doutrina social da Igreja (Rerum Novarum, de Leão XIII, Mit brennender Sorge, de Pio XI, Evangelii Gaudium, de Francisco, dentre outros), onde tanto as doutrinas de cunho libertal/capitalista quanto as socialistas/comunistas são condenadas. Quando um sacerdote se posiciona sobre elas deve englobá-las no mesmo patamar que a Igreja coloca ou será tendencioso.

            Sobre a associação de padres a partidos políticos, o Código de Direito Canônico é bem claro nos cânones 285 §3 e 287 § 1 e 2:

Cânon 285 § 3. Os clérigos são proibidos de assumir cargos públicos que implicam participação do exercício do poder civil.
Canôn 287 - § 1. Os clérigos promovam sempre e o mais possível a manutenção entre os homens, da paz e da concórdia fundamentada na justiça.
§ 2. Não tenham parte ativa nos partidos políticos e na direção de associações sindicais, a não que, a juízo da competente autoridade eclesiástica, o exijam a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum.

            O papa emérito Bento XVI, em 2009, ao receber numa visita ad limina bispos do Nordeste brasileiro, recordou que "os sacerdotes devem favorecer a unidade e a comunhão de todos os fieis e, por isso, devem manter-se afastados da política, que é um campo de atuação dos leigos".
Curiosamente, somente dois clérigos católicos podem exercer um poder político: o bispo de Roma (o papa), que é o chefe de Estado do Vaticano, e o bispo de Urgel (na Espanha), que é um dos dois co-príncipes de Andorra.
Papa Francisco (bispo de Roma) e Dom Joan Enric Vives i Sicilia (bispo de Urgel)
Pe. Barthélemy Boganda
Grande parte das experiências de clérigos católicos com a política partidária foram desastrosas, principalmente no campo da moral: um caso notório na década de 40 foi do centro-africano Pe. Barthélemy Boganda, que deixou o ministério sacerdotal em 1949, quando era deputado na Assembleia Nacional Francesa. Casou em 1950, após questionar o celibato católico num front ideológico com seu bispo, Dom Joseph Cucherousset e querer contrair matrimônio ainda como sacerdote. Barthélemy tornou-se o 1º primeiro-ministro da República Centro-Africana, chamado de “pai fundador” desse país.
Outros casos famosos controversos: Pe. Fulbert Youlou, 1º presidente do Congo entre 1959 e 1963, além de ter sido suspenso do ministério sacerdotal, foi deposto em um golpe de Estado, indo morar de forma marital na Espanha, onde veio a falecer em 1972; Pe. Jean Bertrand Aristide, SDB1, que foi presidente do Haiti por duas oportunidades, deixou o ministério e contraiu matrimônio, também tendo sido deposto duas vezes, foi acusado de corrupção, exilado e atualmente está em prisão dominiciliar; Dom Fernando Lugo, SVD2, bispo de San Pedro, no Paraguai, precisou pedir a perda do estado clerical a fim de ser presidente deste país (a lei paraguaia não permite que clérigos religiosos sejam candidatos), ganhando as eleições em 2008, mas foi deposto pelo Senado em 2012.
Da esquerda para a direita: Pe. Fulbert Youlou, Pe. Jean-Bertrand Aristide e
Dom Fernando Lugo, experiências desastrosas de clérigos na função política
Pe. Cícero
No Brasil, temos tanto experiências desastrosas como positivas. Lembrando que a proibição de clérigos tomarem cargos públicos vai até uma autorização do superior (bispo ou provincial no caso de uma ordem/congregação religiosa), tivemos casos de padres que foram obrigados moralmente a assumirem cargos públicos devido a problemas regionais (lembremos de regiões onde ainda impera o coronelismo, sendo a Igreja a única fonte de refúgio para os seus). O caso mais notório e controverso no Brasil foi o do Pe. Cícero Romão Batista, o famoso Padim Ciço, que foi prefeito de Juazeiro do Norte entre 1911- 1912 e 1914-1927, além de vice-governador do Ceará entre 1914-1916 (acumulando funções como prefeito de Juazeiro). Em 2014, 23 padres disputara as eleições gerais, apesar da proibição canônica. Para mais informações, segue o link: http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/09/08/apesar-da-proibicao-da-igreja-catolica-23-padres-disputam-as-eleicoes-2014.htm

A Igreja acredita que o mais sensato são os seus clérigos acompanharem leigos para que possam assumir cargos públicos de forma honrada e dentro dos princípios invioláveis que devem reger a sã consciência humana. Esse acompanhamento pastoral não é fácil, e por vezes vemos sacerdotes desprezarem bons candidatos que surgem no interior das pastorais em nome de uma “neutralidade”. Em contrapartida, outros que usam da Igreja para conseguir suas pretensões pessoais são levemente tolerados, pois usam da máquina pública beneficiando determinadas comunidades, e isso faz com que alguns clérigos tenham um apoio velado.
Para o leitor, suas próprias conclusões. Lembremos que os clérigos devem antes de tudo promover a paz e a justiça. Muitas vezes o engajamento, a opinião e a filiação partidária trazem à tona escândalos e confusões nas comunidades. É preciso assumir posturas que estejam acima do debate partidário, pois política de verdade não se faz apenas assim.

__________
1 SDB: Salesianos de Dom Bosco.
2 SVD: Sociedade do Verbo Divino


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Católicos e políticos: uma identidade em tensão. São Paulo: Paulinas, 2006 (Col. Quinta Conferência: Realidade social).

PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. 7. ed. São Paulo: Paulinas: 2013

VÁRIOS. Código de Direito Canônico. 15. ed. São Paulo: Loyola, 2002.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Giana, Amilcar, Zé e você - o problema da cultura de Itajaí é político

Fonte: Roberta Sabino (facebook)

O filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), no livro 1 de sua obra Política cunhou uma expressão interessante. Ele dizia que o homem comum era um "animal político" (Zóon politikon). Por que isso? Pois ele, como todo bom grego antigo, não via nada fora da pólis (cidade-Estado). O ser é aquilo que ele se mostra em sociedade. Ele é como ele age politicamente.

Apesar dessa concepção de Aristóteles não dar conta da complexidade humana, ela é interessante para analisarmos fatos sociais, inclusive algumas situações que vem ocorrendo ao longo de alguns anos na cidade de Itajaí. Quero aqui centrar-me no caso envolvendo a cantora Giana Cervi, interrompida em seu show de modo brusco pelo ex-prefeito Amílcar Gazaniga (PP), que era um dos responsáveis pela organização da Regata Transat Jacques Vabre e da Aventura pelos Mares do Mundo. Segundo a organização do evento, a interrupção do show foi por questões de segurança.

Certamente Aristóteles se escandalizaria ao ver a atitude. Ele provavelmente olharia para o ex-prefeito e diria que ele simplesmente não sabe viver em sociedade. O pior é que se você tem amizade com um político desse nível, dentro da concepção aristotélica, você concorda com suas atitudes. Pois não existe essa coisa de "separo a política da amizade." Ele é o que ele se mostra.

Não é de se esperar muito deste ser político. Ele, que possui uma vasta carreira dentro da política brasileira (para quem não sabe, ele foi até presidente dos Correios), foi eleito prefeito de Itajaí em 1977 pelo partido ARENA. Isso mesmo, o partido da situação da Ditadura Militar. Deixo para livre interpretação agora dos leitores.

Nossa querida cidade, dominada intelectualmente por um grupo oriundo da ARENA (o PP é o sucessor da ARENA, assim como o DEM e o PSD, cisões posteriores) só perdeu em todos esses anos. Vejam os prédios históricos de nossa cidade, jogados ao léu e muitos destruídos naturalmente pelo terrível tempo.

Rua Pedro Ferreira, prédios antigos, que logo cairão. Não existe
projeto de tombamento para o local (que poderia ter um centro
histórico, sim, Itajaí, uma cidade de suma importância sem um
centro histórico). Um pouco antes, há um prédio antiquíssimo
onde funciona um prostíbulo. Lamentável. (Foto: arquivo pessoal)

É a política do Regime Militar ainda implantada em nossa cidade. Assim como o ex-prefeito Amílcar se comportou, vários se comportam do mesmo modo autoritário e censurante. Assim como mais um filiado do PP, o vereador José Alvercino Ferreira, que em sua verborragia doente, na sessão da Câmara de Vereadores do dia 3 de dezembro de 2013, disse em alto e bom som que o ex-prefeito "(...) devia ter tirado a tomada, dobrado em dois e dado nas costas dela, pra aprender." Se tiver dúvidas, assista o vídeo aqui. Uma expressão de cunho machista, incitação ao ódio e à violência, oriunda da boca de um parlamentar em mandato no período democrático. Um escândalo total!

Fonte: Diarinho de 5/12/2013

Enquanto tivermos esses seres políticos na nossa pólis, nossa cidade continuará a ver cenas até piores como essa. Nossos prédios históricos cairão e somente contará a história as elites dominantes. É compreensível, pois a arte e a cultura são os únicos caminhos livres da humanidade, e as grandes ditaduras sempre as calaram para tentar dominar as mentes da população.

Alegro-me em ver que algumas vozes culturais urgem contra esse modelo político terrorista de Estado que machuca nossa amada Itajaí. Essas pessoas devem sim ser colocadas para fora da vida política da cidade, nem que para isso uma revolução aconteça. Quem sabe assim, a ética de Aristóteles, a busca pelo bem comum, possa se instaurar em Itajaí e faça florescer novos e excelentes animais políticos!