segunda-feira, 9 de março de 2015

Entrevista - Transexuais e religião

            No dia 24 de janeiro do presente ano, o papa Francisco recebeu em audiência privada o sr. Diego Neria Lejarraga. Seria algo até comum pois segundo a tradição cristã qualquer católico pode solicitar uma audiência com o Santo Padre se não fosse por um pequeno detalhe: Diego é transexual. Ele vive na cidade de Plascencia, na comuna de Estremadura.
Diego Neria (à direita), transexual recebido no Vaticano
               O caso reascendeu um debate nos meios católicos, principalmente sobre como as religiões lidam com a transexualidade. A despeito do que o catolicismo fala sobre o assunto, eu procurei ir num caminho diferente: entrevistei por e-mail duas transexuais (Lirous e Fabrizia) e uma trânsgenero (Gisele), fazendo perguntas sobre o modo como elas vêem a religião. O resultado você pode conferir abaixo:


Nome: Lirous K'yo Fonseca Ávila

Idade: 32 anos
Ocupação: Estudante de Serviço Social e Coordenadora da ADEH (Associação de Direitos Humanos com enfoque na sexualidade)
Cidade: Florianópolis-SC
Um lema de vida: "Se algo não é obviamente impossível, então deve haver uma maneira de fazer." Nicholas Winton

1) Qual sua formação religiosa?
            Eu me criei dentro da igreja católica e sempre com muita  vontade de seguir uma possível "carreira religiosa". Expressava desde criança quando brincava de "Missa" em casa com minhas pelúcias e bonecos de guerra.

2) Sua concepção de Deus é...
            Não acredito em um Deus personificado, acredito numa grande energia que nos movimenta, no fundo acredito que todos juntos somos Deus, e que estamos todos ligados com o universo.

3) Fale-me experiências (sejam positivas e/ou negativas) que você teve com a religião.
            A religião ao mesmo tempo que me acolhia, me excluía, tive fases na minha vida que me deixaram um pouco decepcionadas com as pessoas que faziam parte dela, pois sempre imaginei que quem estava dentro da carreira, sendo padre, irmãos, e afins, deveriam ter um grau de espiritualidade elevado e isso me foi comprovado que não. 
            Enquanto criança, que tinha a voz de "castrato", eu era boa o suficiente para estar junto, mas logo que o meu corpo começou a se modificar espontaneamente na puberdade, já não era mais boa o suficiente para estar ao lado dos irmãos La Sallistas. Sofri com a modificação corporal na minha puberdade quando o meu corpo começou a criar formas sem qualquer uso de medicação e por não ter uma explicação lógica, acabei sendo convidada a me retirar do espaço que frequentava, nesse caso a escola.
            Após isso fui conhecer outros espaços religiosos, não necessariamente católico ou Cristão e cheguei a conclusão que todas as religiões tem muita coisa em comum, que acreditam de formas diferentes e que carregam com elas um pouquinho da "verdade". Não acredito mais em uma religião absoluta que seja a dona da verdade, pois não há.
            Com o passar dos anos, os homens corromperam muito essa verdade a favor dos seus próprios benefícios.
            Acredito que a elevação espiritual é importante indiferente da religião, desde que seja para benefício próprio espiritual, sem ferir o outro. Todas as religiões fazem um papel importante se o indivíduo se permitir, o problema é que no meio disso, muitos dos seus dirigentes se aproveitam dos mais frágeis para poder viver de uma maneira mais confortável dentro do nosso sistema capitalista, tornando grandes templos em comércios.

4) Faça uma análise da religião e seu papel na sociedade hoje. Ela é importante? Sim? Não? Justifique
            O papel da religião deve ser restrito a isso, espiritualizar, discordo da religião interferir na política por ideologias próprias e acho obsoleto a participação dela em pontos estratégicos para que se mantenha a alienação do povo e que continuem subtraindo dinheiro daqueles que menos tem para benefício próprio, cito com isso as religiões que tem esse propósito. Vejo profissionais que levam suas crenças para suas mesas de trabalho como juízes, psicólogos, médicos... esse profissionais levam suas ideologias prejudicando outras pessoas com o intuito de querer salvar ou ajudar, sendo que esse não é o papel deles, vão se reconhecer fazendo algo útil, quando estiverem com suas mentes voltadas para a sua melhora/correção e não se preocupando com a correção do outro. 
            Muitas das religiões possuem ideologias exatas e não humanas, onde não existe uma possibilidade de questionamento, respondendo as perguntas por que sim, e se você duvida, é porque você vive em pecado. Meu Deus não é um ser punitivo, vingativo ou castrador, e a energia que movimenta tudo em todos os espaços e inclusive me fez da forma que eu sou hoje. Acredito mais na lei de ação e reação apontada pelo Alan Kardec do que este Deus que passa castigando as pessoas pelo mundo. As pessoas colhem o que plantam e a intervenção de Deus é mínima nesses casos. 
            Se tivermos pessoas "espiritualizadas", digo pessoas com pensamentos coesos e pelo bem de toda uma sociedade sem exclusão, teremos essas pessoas atuando nas pontas como no serviço social, educação, assistência, saúde, políticas, e aí sim, estaremos em uma era de evolução e não mais de exploração.
              No momento que o nosso pensamento, ideologia, ou ideia de sistema prejudica uma pessoa, ele já não é mais uma boa ideia e devem ser reformuladas.

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Nome completo: Gisele Ducav
Idade: 28 anos
Cidade: Concórdia-SC
Profissão / Ocupação: Médica-veterinária
Um lema de vida: Fazer sempre o bem, sem saber a quem!

1) Qual sua formação religiosa?
            Posso dizer que meu avô paterno, que faleceu quando eu tinha sete anos de idade, foi o responsável para uma formação religiosa sólida e persistente.  Foi ele quem me ensinou a rezar, a frequentar a missa, o respeito para com Deus e sem perceber- também me ensinou a devoção à Virgem Maria. Na cabeceira da cama dele, lembro-me que havia um quadro com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Por vezes, no meio da noite, meu avô padecendo das dores de uma úlcera de estômago e do câncer, clamava para que Ela o "levasse", para aliviar sua dor. Na adolescência, acabei me afastando da religiosidade. Todavia, agora em vida adulta, ela volta com mais fervor e estou mais consciente e madura quanto a necessidade da presença constante de Deus em nossas vidas.

2) Sua concepção de Deus é...
            Ser perfeitíssimo, criador do Céu e da Terra, fonte de amor, justiça e humildade inesgotáveis.

3) Fale-me experiências (sejam positivas e/ou negativas) que você teve com a religião.
            Felizmente, não tive experiências negativas pessoais com a pluralidade de religiões existentes. Porém ouço e vejo muitos atos os quais não condeno- pois não sou Deus, mas desaprovo. A intolerância religiosa, o extremismo, o charlatanismo são atitudes que fazem mal ao próximo e por conseguinte, às nações. E há aqueles que sequer acreditam em Deus. Sempre recorro às forças maiores, em situações de sossego ou em momentos que necessito de ajuda. E não me canso de agradecer sempre- por tudo e por todos, desde as coisas mais simples até as conquistas mais soberanas.

4) Faça uma análise da religião e seu papel na sociedade hoje. Ela é importante? Sim? Não? Justifique
            Acredito que a religião seja mais importante para cada pessoa em si, do que para sociedade como um todo. Veem-se ataques constantes entre religiões, fruto de pura ignorância. Deus é um só. Não existe a mais certa ou errada, a melhor ou a pior. Pois, no final, tudo será entre Deus e você, ninguém mais. O que eu, como um ser único criado por Deus, independente da religião, fiz hoje de bom à Humanidade hoje?

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Nome:  Fabrízia de Souza Felipe
Idade: 31
Cidade: Florianópolis-SC
Profissão/Ocupação: Acadêmica de Letras-Alemão da UFSC e Diretora Financeira da ADEH (Associação de Direitos Humanos com enfoque na sexualidade)
Um lema de Vida: Viver Intensamente, respeitando e sempre se colocando no lugar do outro. 

1) Qual sua formação religiosa?
            Fui criada na católica, porem hoje não sigo nenhuma religião.

2) Sua concepção de Deus é...
            Acredito em Deus. mas não na Bíblia. Acredito e sigo alguns ensinamentos como:
 *   perdoai-vos uns aos outros;
*  não julgar o próximo; 
amar o próximo. 

3) Fale-me experiências (sejam positivas e/ou negativas) que você teve com a religião.
            Não sigo uma religião, não pela religião, mas sim pelos representantes das religiões.
            Alguns representantes, ao invés de passarem coisas boas, disseminarem o amor, a fé, a união entre outras coisas, ficam disseminando o contrário: o ódio, o que acham que é certo ou errado. Por esse motivo fico desacreditada com as religiões. 

4) Faça uma análise da religião e seu papel na sociedade hoje. Ela é importante? Sim? Não? Justifique
            Hoje o catolicismo tem um representante que está sendo muito importante para esse momento em que estamos vivendo. O Papa Francisco, além de sua sensibilidade, tem uma percepção, uma visão diferenciada. acho que ele tem sido um excelente representante.


6 comentários:

  1. Passa o contato delas q lindas

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    1. Caro "anônimo". O meu blog tem um intuito reflexivo. Se queres algum site de relacionamento, sugiro que vá procurar em outro local.

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  2. Parabéns pela entrevista!

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  3. Caro Nahor, como sempre, amei sua matéria (esclarecedora e corajosa). Parabens!
    Ainda precisamos muito saber acolher o DIFERENTE. Será que temos "medo" por ignoracia ou preconceito?
    Merci.

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  4. Parabéns pela iniciativa diferenciada, pois o que geralmente vemos é como a religião vê as pessoas trans. Já aqui na entrevista, vemos qual é o parecer delas quanto a visão de religiosidade.

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